quinta-feira, 29 de maio de 2008

PF prende 40 por retirar ilegalmente produto de terra indígena de MT; fazendeiros, servidores e índio detidos



Índios permitiam exploração em troca de presentes; servidores recebiam propina por ‘vistas grossas’

Clarice Navarro Diório
Da Sucursal de Cáceres

Quarenta presos é o saldo do primeiro dia da Operação Caipora, deflagrada ontem pela Polícia Federal para desbaratar um esquema criminoso de extração de madeira de dentro da reserva indígena Vale do Guaporé, na região oeste de Mato Grosso. Na área vivem índios nhambiquaras e um representante da etnia foi preso, além de fazendeiros, dois policiais rodoviários federais, um funcionário público municipal, outro da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), três da Fundação Nacional do Índio (Funai) e um policial militar.

A força de 230 policiais foi empregada na ação, cuja base foi no município de Cáceres (210 quilômetros de Cuiabá). A Justiça Federal decretou a prisão preventiva de 47 pessoas e determinou 54 buscas e apreensões. Os acusados vão responder processos por formação de quadrilha, extração ilegal de madeira, furto qualificado, corrupção ativa, corrupção passiva, prevaricação e receptação. Além de Cáceres, foram cumpridos mandados em Cuiabá e nos municípios de Pontes e Lacerda, Nova Lacerda, Conquista D’ Oeste, Comodoro e Vilhena (RO).

A reserva indígena explorada tem aproximadamente 245 mil hectares. Acredita-se que a quadrilha tenha derrubado 5,8 mil hectares, o que equivale a 71 mil campos de futebol. Os dados da PF se referem a áreas visualizadas por satélites, não incluindo o desmate seletivo.

Segundo informações da PF, o esquema tinha início com o aliciamento de índios que, em troca da permissão pela retirada da madeira, recebiam “presentes”, como carros, motos e gêneros alimentícios. Os funcionários públicos envolvidos recebiam dos madeireiros pagamentos mensais de propina para permitir a atuação dentro da reserva indígena e, posteriormente, para o transporte da madeira. Os fazendeiros envolvidos são proprietários de terras vizinhas à reserva e permitiam que as áreas servissem como rotas de acesso e depósito para a madeira extraída ilegalmente.

Estão sendo investigados também indícios de que as madeireiras que atuam na região utilizariam os planos de manejo dessas fazendas para justificar o estoque que comercializam em seus pátios. A operação abrangeu um raio de 500 quilômetros, entre Cáceres e Vilhena. Os presos foram encaminhados para a Delegacia de Polícia Federal em Cáceres, onde prestaram depoimento. Até o início da noite de ontem ninguém havia sido liberado.

A extração ilegal de madeira vinha acontecendo diuturnamente no interior da reserva indígena, obedecendo etapas simples, como invasão, extração, transporte para os depósitos e para as madeireiras, beneficiamento da madeira e revenda. Além de receber propinas, os índios estariam ainda atuando como “olheiros” impedindo flagrantes por parte de eventuais fiscalização de órgãos ambientais.

A PF apenas divulgou os nomes dos servidores públicos envolvidos. São eles os policiais rodoviários federais Edson Canabria de Carvalho e Maria da Conceição Rodrigues; o funcionário da prefeitura de Nova Lacerda Oneri José Marchezan; os funcionários da Funai Pedro Luís da Silva, José Miranda Alves e Luiz Antonio Ferreira Murakami; o funcionário da Sema Emanoel Rosa de Oliveira e o policial militar Benedito Assunção de Souza Neves. O restante, a PF se comprometeu em apresentar hoje juntamente com um balanço da operação.

Fonte Diário de Cuiabá

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