Projeto garante a reeducandas oportunidade de reintegrarem a sociedade
Da Redação/O Documento
Pensar no sistema penitenciário nacional é deparar com uma série de problemas e estigmas sociais: superlotação, abandono e violação dos direitos humanos. Em Cuiabá, uma iniciativa está permitindo que mulheres, na maioria das vezes vítimas da vulnerabilidade social, mudem esse pensamento da sociedade.
Ao entrarmos no Presídio Feminino Ana Maria do Couto May, um paradoxo se constrói: esquema de segurança montado para suportar a demanda de reeducandas convive lado a lado com os projetos desenvolvidos para que as mesmas estejam preparadas para reintegrar a sociedade. Num local de privação da liberdade, ferramentas para a construção de oportunidades às mulheres abrem as portas para o futuro.
BONECAS PUPPY TUCH - Nos corredores, pequenos detalhes já indicam algumas das diferenças existentes no tratamento das mais de 230 reeducandas que atualmente vivem no presídio. Logo na entrada, ladrilhos coloridos, pinturas artísticas e imagens religiosas confeccionadas artesanalmente ornamentam a entrada da creche construída no local para abrigar os filhos das reeducandas. Ali, cerca de 20 crianças entre zero e dois anos recebem atendimento médico, social e pedagógico.
Dentre os projetos de ressocialização – corte e costura, artesanato, danças típicas e oficina de salgados – destaca-se a oficina de bonecas de pano. Um ateliê que funciona dentro do presídio reuniu 14 reeducandas com um único objetivo: trabalhar. Elas aprenderam as técnicas de confecção de bonecas de pano - desde o desenho dos moldes até o acabamento - e já comercializam as peças em feiras nacionais e internacionais e lojas.
O projeto teve início há dois anos quando a empresária Alice Grabowski decidiu investir na qualificação de reeducandas após se comover com a situação das chamadas “forasteiras” - mulheres vindas de outros estados e países vizinhos, condenadas e que não recebem visita de familiares. Segundo Alice, essas mulheres “acabam caindo no esquecimento” e, conseqüentemente, não enxergam perspectivas de futuro após saírem da prisão. “O amor à arte acabou nos unindo”, afirma.
M.F.A., condenada a 46 anos de prisão, foi uma das primeiras mulheres que integraram as atividades do ateliê da professora Alice. Após aprender as técnicas de confecção das bonecas de pano, a reeducanda decidiu dar a sua vaga para outra mulher, uma vez que existe um grande número de reeducandas na fila de espera para trabalhar no ateliê. “Aqui todas sabem do valor do trabalho e principalmente da importância de se aprender novas profissões”, comenta. Hoje, M.F.A. é uma das reeducandas que cuidam da horta que funciona no presídio por meio de outro projeto de ressocialização.
As reeducandas condenadas que trabalham na prisão recebem, além de outros benefícios sociais, a diminuição da pena. A cada três dias trabalhado, um dia de pena é reduzido. A reeducanda, M.A., 30 anos, que também trabalha na confecção de bonecas, comemora a iniciativa e já faz novos planos para o futuro. “Minha intenção é sair daqui e montar o meu próprio ateliê”, relata.
A popularidade das bonecas produzidas no presídio feminino Ana Maria do Couto May, segundo a professora Alice, é um dos fatores que colaboram para a dedicação exclusiva das reeducandas. “A cada dia, ficamos sabendo de bonecas que foram enviadas para outras cidades e até outros países. Ficamos muito orgulhosas”, comemora Alice.
Em outubro, algumas das peças estarão expostas na “Art Mund – Feira Internacional de Artesanato”, em São Paulo. Em Cuiabá, as bonecas podem ser encontradas para comercialização na Casa do Artesão.
RECONHECIMENTO - Os projetos de ressocialização e humanização desenvolvidos pelo Sistema Prisional de Mato Grosso no Presídio Feminino fizeram a unidade ser apontada pelo relatório da CPI do Sistema Carcerário Nacional, da Câmara dos Deputados, como a segunda melhor unidade do país, atrás apenas da Associação de Proteção ao Condenado (APAC) de Belo Horizonte. Dos presídios femininos, o Ana Maria do Couto May foi apontado como primeiro melhor.
“A diferença está na forma de tratamento das reeducandas. Trabalhamos com a idéia de reinserção social, a partir daí, apresentamos a essas reeducandas ferramentas para que elas possam estar aptas ao convívio social com perspectivas sólidas”, afirma a diretora do presídio, Dinalva Oriede Silva Souza.

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