Patrícia Poeta passa madrugada em abrigo em Ilhota(SC)
Fantástico
Cidade teve o maior número de mortos nas enchentes. Crianças e adultos contam o que viram e sentiram no dia em que perderam tudo.
A chegada a uma das áreas mais atingidas de Santa Catarina é difícil. Nós fomos ao Parque Botânico do Morro do Baú, que fica na cidade de Ilhota, uma das áreas mais afetadas pela chuva. Em uma igreja, funcionava um abrigo, mas dezenas de pessoas tiveram que deixar o local, porque essa área também apresenta risco de desmoronamento.
O prédio está quase vazio. Quase, porque tem gente que insiste em ficar e correr perigo. “Se for para morrer, vou morrer aqui mesmo, nesse lugar”, diz uma desalojada.
Seguimos até outro abrigo, a seis quilômetros dali, para onde foram levados moradores resgatados pelos bombeiros. Quem está no lugar ou teve sua casa destruída ou precisou sair, porque o risco desabamento era muito grande.
“Eu não sei nem como chegar na minha casa. Não dá para chegar na minha casa, é só pau, pedra e lodo. Tem nada mais lá, tudo que nós tínhamos se acabou”, lamenta Jorge Candido, dono de madeireira.
Uma rotina vai sendo criada. Os adultos arrumam as camas, improvisam um jeito de secar as roupas, tentam se distrair com revistas. E as crianças, acostumadas a brincar na rua, agora precisam conter a agitação e entender certos assuntos que antes eram coisa de gente grande.
Laís Reichert, estudante – Lá em casa a gente brincava, tinha muito lugar para a gente correr, brincar, aqui não tem. A agora era final de ano, nós íamos fazer festinha na escola e não deu, porque começou a cair tudo.
Patrícia Poeta – Qual vai ser o dia mais triste, o momento mais triste que você vai lembrar?
O dia que a gente teve que correr para o bananal, para ficar lá. Estava tremendo de frio, a gente estava tudo chorando, com medo.
Você hoje ainda tem medo?
Tenho. De cair tudo em cima de nós.
Dona Maria, o que aconteceu com a sua casa?
Maria das Dores da Costa, costureira – A gente estava em casa, de repente escutamos barulho tipo um trovão, quando saímos na rua o morro estava descendo por cima da nossa casa. Estou assim como se eu estivesse anestesiada, como se não estivesse acontecendo, é um filme de terror que não acaba nunca, cada dia eu acordo e acho que aquilo é um sonho, eu estou praticamente fora de mim.
Marineide, você está grávida?
Marineide – Estou, vou fazer sete meses.
Você também perdeu sua casa?
A casa e tudo o que tinha dentro. Meu filho acordou a gente e falou que estava enchendo. Quando acordei que fui olhar, era tarde demais. Quando a gente saiu de dentro de casa, já saiu com a água nos peitos, e porque os vizinhos da gente tiraram, se demorasse cinco minutos a gente tinha morrido todo mundo afogado.
Com os parentes de Seu Francisco Prum, agricultor, foi pior. “Foi a família completa, eram em seis e em seis se apagaram, não tem mais nenhum”, conta ele. Seu Francisco e a mulher também perderam a casa e agora estão sem rumo certo.
Patrícia Poeta – Simone, você está na fila do banheiro?
Simone Couto, agricultora – Esperando para tomar banho, porque é um banheiro para muita gente, está complicado, porque ainda faltou água.
São cinco minutos para cada um tomar banho?
Tem que ser rápido, porque a luz fica acesa só até 23h. Tem horário de tomar café, de tomar banho... Eles apagam a luz às 23h.
Estou vendo que as luzes já apagaram, Simone, já é hora de dormir e você ainda nem tomou banho...
É que estava cheio, a gente estava ajudando na cozinha, porque é muita gente...
Seu Nilso, as luzes já apagaram, você não está conseguindo dormir?
Nilso Chmitz, marceneiro – Não, é lamentável que eu precisei fazer caixão de defunto. Com motosserra, fazer caixão para a minha comunidade, pelo amor de Deus. E agora, como vou fazer o Natal nosso? Natal nosso é esse aqui.
Amanhece.
Patrícia Poeta – Dona Maria, como é que foi a noite?
Maria das Dores da Costa – Foi razoável, não deu para dormir, mas deu para descansar um pouco. O barulho da chuva que antes relaxava agora atormenta, não dá mais para dormir.
Continua chovendo, faz um pouco de frio - são 6h e é hora de preparar o café-da-manhã.
Patrícia Poeta – Como a senhora faz para atender tanta gente?
Ivete Radkai, voluntária – Nesse momento não é só dar de comer, eles estão precisando mais de um apoio moral, que as pessoas se sintam em casa. Estão perguntando, Ivete, o que vai fazer para o almoço? Digo: ‘Eu quero churrasco, maionese, quero um bolo enfeitado’.
Enquanto muita gente vai tomando o café-da-manhã, soldados do Exército chegam com novas doações.
Patrícia Poeta- Vocês têm trabalhado um bom número de horas aqui?
Adelar Duarte, da Polícia Ambiental – Direto. Desde que a Polícia Militar foi acionada, nosso pessoal está em uma escala muito apertada. E o mais interessante de tudo é que notamos que os nossos policiais não querem ir para casa, não querem descansar, querem ficar aqui ajudando, porque a sensação de ser útil, quando olhamos para essas crianças, essas pessoas... Elas se sentem protegidas, isso para nós é muito gratificante.
Mais uma noite se passou nesse abrigo e o que preocupa muita gente é a incerteza de não saber quando a chuva vai parar, de não saber até quando eles vão ficar aqui e, o pior de tudo, de não saber para onde eles vão depois, na hora de começar tudo de novo.

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