Políticos vão a GO e famílias de desaparecidos reclamam
Direto de Luziânia
Parentes de desaparecidos prestam depoimento à CPIFoto: Márcio Leijoto/Especial para Terra
Pelo menos seis senadores, oito deputados federais e dois estaduais estiveram nesta quarta-feira em Luziânia (GO) para conversar com as mães dos seis jovens que desapareceram entre os dias 30 de dezembro e 18 de janeiro e com autoridades policias que investigam o caso. O grupo representa duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) e duas comissões permanentes do Congresso Nacional.
Seis jovens do bairro Estrela D'Alva, em Luziânia desapareceram desde 30 de dezembro. Apenas um deles tem mais de 18 anos. Os desapareciso não têm nenhuma passagem pela polícia nem envolvimento com qualquer infração ou problema dentro de suas casas, na escola ou na rua.
A polícia procura pelos jovens no Distrito Federal e no interior de Goiás. Oito policiais cuidam exclusivamente do caso e trabalham principalmente com duas hipóteses: sequestro para trabalho escravo e uma segunda que não é divulgada.
Críticas
Os parlamentares da CPI do Desaparecimento de Crianças e Adolescentes da Câmara dos Deputados, dizem que a Polícia Civil demorou muito para entrar no caso, e que vão requerer o envolvimento da Polícia Federal. Eles afirmaram também que o desaparecimento ainda é um mistério. "A polícia demorou 15 dias para começar a investigar. Só quando sumiu a terceira criança é que eles entraram no caso. Até então nada havia sido feito. Isso é um problema muito grave", disse o deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP), segundo vice-presidente da CPI. Os deputados promoveram uma audiência nas instalações da Câmara Municipal, com envolvimento do delegado regional de Luziânia, José Luiz Martins de Araújo, e os familiares dos adolescentes.
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que esteve presente na reunião com o secretário de Segurança Pública de Goiás, Ernesto Roller, e diz pretender levar o caso para a Comissão de Direitos Humanos do Senado, afirmou ter percebido que a polícia está "sem rumo" no caso. "São várias linhas de investigação", disse.
Roller disse que a Polícia Civil está investigando e está avançando no caso, mas se divulgar qualquer informação vai atrapalhar na elucidação dos desaparecimentos. Roller disse também que todos os esforços estão sendo tomados e que vários policiais estão envolvidos na apuração.
Jovens estariam vivos
No meio da tarde, os senadores Demóstenes Torres (DEM-GO), Magno Malta (PR-ES) e Romeu Tuma (PTB-SP) afirmaram, em coletiva, que a Polícia Civil tem informações concretas de que os seis jovens estão vivos e que alguns casos têm ligação entre si. Eles se reuniram por uma hora com o secretário estadual de Segurança Pública, com o diretor-geral da Polícia Civil, Aredes Correia Pires, e com o delegado regional de Luziânia. "Há pistas concretas no bom sentido que em breve estes casos estarão solucionados", disse Torres.
Questionados se as crianças estão vivas, os senadores disseram haver "informações concretas" que apontam isso. "Não podemos revelar detalhes das investigações. Isso só iria atrapalhar. O que podemos dizer é que a polícia está efetivamente no caso e que a linha de investigação é boa", disse Malta.
Torres também informou que a CPI da Pedofilia do Senado colocou à disposição da polícia um grupo multidisciplinar da comissão, envolvendo membros da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e outros órgãos, para auxiliar nas investigações. E disse ainda que a polícia quebrou sigilos telefônicos e bancários de pessoas.
Envolvimento da PF
O pedido a ser encaminhado ao Ministério da Justiça hoje ou amanhã pela CPI do Desaparecimento, exigindo a particação da Polícia Federal (PF) foi a única decisão concreta da audiência na Câmara Municipal. Demóstenes Torres, entretanto, disse não haver requisitos para envolver a PF.
Os deputados convocaram uma reunião extraordinária da CPI no Congresso para hoje às 19h para que se aprove o pedido de participação da PF. É preciso o sim de 13 dos 37 membros da comissão. Na audiência só estavam oito presentes.
O delegado titular da 17ª Delegacia de Polícia de Luziânia, Rosivaldo Linhares, afirmou que a Polícia Civil de Goiás não "despreza" o apoio de nenhuma instituição na investigação. Linhares rebateu as críticas de que as famílias não estavam recebendo informações sobre o andamento das investigações afirmando que o sigilo "é da natureza do próprio inquérito".
O envolvimento da PF no caso é a principal vontade dos familiares dos jovens desaparecidos. "A única boa notícia hoje foi essa convocação da Polícia Federal. O resto já ouvimos todos os outros dias. Não teve nenhuma novidade", disse Keila Rabelo, 30 anos, prima de George Rabelo dos Santos, 17 anos, que sumiu no dia 10 de janeiro.
Keila e seus parentes protestaram pela manhã contra a falta de informações por parte da polícia e da romaria de políticos em Luziânia. A mãe de George, Sirlene, 42 anos, passou mal e foi substituída por Keila no depoimento. "Esse pessoal vem aqui, fala sempre a mesma coisa para a gente e não fazem nada. Não queremos mais saber de políticos, queremos nossas crianças que sumiram", disse aos jornalistas enquanto Sirlene aguardava socorro.
Divergências entre deputados e senadores
Os deputados exigiram que o delegado regional que a Polícia Civil ao menos passe regularmente algumas informações que não comprometam as investigações aos familiares, para mostrar que a pollícia está avançando nos casos. "É como nos hospitais quando tem um paciente em estado grave e os médicos divulgam um boletim diariamente. Isso pode ser feito aqui também", disse o deputado João Campos (PSDB-GO), que está em Luziânia de novo, mas desta vez como integrante de uma outra comissão. Antes, ele veio acompanhado do Senador Marconi Perillo (PSDB-GO) e representando a comissão de Segurança Pública da Câmara.
O "boletim policial", entretanto, foi contestado pelos senadores. "A polícia está investigando e não pode dizer o que está fazendo. Sei que é um momento de muita angústia para os familiares. Mas estes jovens desapareceram agora e precisamos deixar a polícia investigar. O que podemos dizer é que a polícia está fazendo seu trabalho", disse o senador Malta.
Os deputados não têm a mesma opinião dos colegas de Congresso. Para a CPI, a polícia demorou muito a entrar no caso e isso pode ter comprometido as investigações. Eles se reuniram em uma sala reservadamente com a cúpula da Polícia Civil que investiga o caso no recesso da audiência. "Não podemos dar detalhes do que foi dito lá dentro, mas dá para dizer que estamos mais confiantes no trabalho da polícia agora", disse a presidente da CPI, a deputada Bel Mesquita (PMDB-PA).
Sétimo caso
Os deputados também ouviram hoje a dona de casa Neusa Maria Alexandre dos Santos, cuja filha, a estudante Leliane, 25 anos, desapareceu no dia 1º. A jovem saiu de casa por volta de 14h e não foi mais vista. Os membros da CPI chegaram a fazer algumas perguntas, mas informaram a Neusa que seu caso não pode ser analisado pelo grupo. "Nossa CPI abrange desaparecimentos de pessoas até 17 anos", disse a presidente da comissão. Mesmo assim, as mães dos outros desaparecidos consideram o caso de Leliane como o sétimo em Luziânia.
Com informações da Agência Brasil.

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