Jaime Sautchuk *
Os atos suicidas em ações armadas de humanos me fazem
relembrar um clássico sertanejo de Dino Franco e Décio Santos,
notabilizado pela dupla Tião Carreiro e Pardinho. É a música “Travessia
do Araguaia”, cujo tema é a técnica do boi de piranha, que é jogar um
animal na água pra ser devorado, enquanto os outros passam.
A letra diz que um peão indignado perguntou ao boiadeiro o
porquê daquele sacrifício e este respondeu que “Jesus também morreu pra
salvar a humanidade”. A estória narrada nos faz conjecturar sobre o que o
boi vitimado estaria pensando naquele momento. E aí voltamos aos
humanos.
A decisão consciente de uma pessoa de se explodir junto com uma bomba
presa ao seu corpo, de jogar-se com um avião contra navios, instalações
militares ou torres de escritórios nos suscitam indagações idênticas. O
que pensam esses seres ao se lançarem para a morte numa ação que muitas
vezes é só pra chamar a atenção.
Desde logo, uma coisa é certa: trata-se de uma força motora muito
diferente da que leva alguém a um suicídio, digamos, comum. Este é
movido por algum fator psicológico, de desespero, depressão ou mesmo por
razões muito nobres, como casos históricos de pessoas que se suicidaram
para não se tornarem fardos para ninguém.
Neste último caso, enquadra-se o casal Paul Lafargue e Laura, filha mais
nova de Karl Marx. Intelectuais de renome internacional, eles fizeram
um pacto de morrerem juntos e de fato se suicidaram no dia 26 de
novembro de 1911.
Também é conhecida a prática dos samurais japoneses, em tempos muito
mais remotos, que se matavam por vergonha de alguma derrota ou em defesa
da honra. Historiadores dizem que foi este gesto de samurai que
inspirou, durante a II Guerra Mundial, a figura do kamikaze, os pilotos
suicidas da força aérea japonesa.
Dados do governo daquele país nos contam que perto de 4.000 kamikazes
morreram em ações para afundar navios ou derrubar instalações em terra
das forças aliadas. O que os movia, mais do que a religião, era um forte
sentimento nacionalista.
É claro que há diferenças entre um kamikaze, por exemplo, e um
homem-bomba que se explode nas ruas ou próximo de algum alvo físico.
Começa que o pilotos japoneses tinham sólida formação, em anos e anos de
academia, o que custava muito. O contingente que morreu significou
prejuízo incalculável para o Japão.
O mesmo pode-se dizer dos pilotos árabes que assumiram, por exemplo, os
aviões que derrubaram as Torres Gêmeas no 11 de setembro de 2001, em
Nova Iorque. Já um homem-bomba pode muito bem ser um analfabeto, que
pouco custou à sua sociedade.
Há outras diferenças entre eles. O kamikaze visava só alvos militares e
seu objetivo principal era enfraquecer o inimigo militarmente, ganhar
terreno enfim numa guerra que estava em curso.
Os outros casos são mais para chamar a atenção para um problema, uma
causa, ou mesmo se contrapor ao terror de estados. Ou então eliminar
alguma autoridade militar ou civil que seja símbolo de um regime, do
terror de algum estado.
Também são comuns as ações cuja função é simplesmente chamar a atenção
das piranhas enquanto algo de maior porte, como a travessia do rio,
estiver prestes a acontecer, ou já esteja em marcha. Isreal faz muito
isso nas invasões de territórios palestinos, desde 1967. Chama a atenção
para um lado e, num vapt-vupt, ocupa mais territórios em outras bandas.
O filósofo italiano Norberto Bobbio analisou a questão do terrorismo de
Maquiavel a Che Guevara. O primeiro defendia os detentores do poder e
os ensinava como, por via do terror, conseguiriam manter as rédeas nas
mãos. Valia o terror pelas armas ou palavras e ações públicas
amedrontadoras.
Já Ernesto Guevara era contra atentados terroristas fora de uma situação
de guerra, que envolvam populações civis, colocando a sociedade contra
um movimento revolucionário. “Provoca uma perda de vidas de seus
executivos muito superior àquilo que rende como vantagem”, escreveu ele
em seu livro “A Guerra de Guerrilha”.
Os atentados com homens-bomba em meio a populações civis são, pois,
contrários aos objetivos que se queira alcançar, caso sejam políticos, e
por isso mal podem ser chamados de terrorismo, no sentido clássico.
Já o roubo de dinheiro, sem mortes, e sequestros de autoridades têm um
sentido objetivo de fazer caixa para um movimento político-ideológico e
propagandear uma causa, sem atingir cidadãos comuns.
Assim, mesmo que tenham em mente salvar a Humanidade, os protagonistas
de atos suicidas recentes nem podem, no mais das vezes, ser comparados à
causa nobre dos bois de piranhas.

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Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, Estado de SP, Globo, Folha
de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento.
Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS.
* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.