‘Fantasmas’ consumiram quase 1 milhão
São pelo menos cinco empresas, citadas no relatório do TCE, que estão na lista de prestar serviços ‘fantasmas’ à Câmara
Uniserv que, segundo relatório do TCE, está entre o rol de empresas suspeitas de atuação fantasma
JULIANA SCARDUA
Da Reportagem/Diário de Cuiabá
Uma casa abandonada num dos bairros nobres da Capital foi o destino oficial de mais de R$ 430 mil dos cofres da Câmara de Cuiabá em 2007. Trata-se da “empresa” Uniserv (União de Serviços e Comércio Ltda.-ME). Somente em 2007, quase R$ 1 milhão pode ter sido desviado da instituição.
A Uniserv desponta como a grande “captadora” de recursos da Câmara entre cinco empresas consideradas “fantasmas” em relatório técnico do Tribunal de Contas do Estado (TCE). A reportagem do Diário foi em busca dos endereços dessas supostas empresas e confirmou “in loco”, no mínimo a existência de graves indícios de irregularidades cometidas pela gestão do vereador Lutero Ponce (PMDB), presidente da Câmara.
As apurações de auditores do TCE revelam que quatro empresas sem existência comprovada teriam embolsado ao todo R$ 733.332,94 da Câmara em 2007. Além da Uniserv, estão nessa primeira lista a Limparthec Indústria e Comércio Serviços Ltda. (atualmente sob a razão social Melo e Melo Ltda.-ME), a MS Engenharia C. E. Representação e a M.A.F. Pinheiro, sob o nome fantasia de Locamais. Uma quinta empresa, a 2 M Brasil Computers Comércio Importação e Exportação Ltda, foi o destino oficial de outros R$ 244.191,83.
Somando este valor ao recurso destinado às quatro empresas sem existência comprovada, conforme relatório do TCE, chega-se ao total de R$ 977.524,77. Para efeito de comparação, com o mesmo volume total poderiam ser construídas mais de 80 casas populares.
Longe de servir à população, esse mesmo montante, ao que indica o trabalho do TCE, foi gasto na contratação de serviços que sequer foram feitos à Câmara Municipal, por empresas fictícias.
Conforme parecer emitido pelo relator das contas do Legislativo cuiabano no TCE, conselheiro Valter Albano, baseado no trabalho de técnicos do órgão, duas empresas não foram localizadas nos endereços fornecidos pela Câmara Municipal em sua lista de fornecedores e três não possuem nenhuma estrutura que comprove real funcionamento.
As duas situações foram constatadas de perto pela reportagem. Na Uniserv, localizada na Rua Oir Castilho, nº 728, no bairro Jardim Primavera, uma placa grande de metal afixada no muro da suposta empresa imprime ar de certa legalidade ao local. “A qualidade é a nossa marca”, diz a mesma placa.
A aparência de idoneidade fica apenas na fachada, literalmente. O número de telefone informado no cartão de visitas não existe, comunica a mensagem gravada do serviço telefônico. Atrás do muro, uma casa aparentemente abandonada, portas e janelas trancadas, pintura e gramado malcuidados. “É muito raro ver alguém aí. É muito difícil ver alguém mexendo nesse portão”, relata uma vizinha.
Apesar dessa descrição, é a mesma Uniserv, curiosamente, a responsável pelos serviços de limpeza e conservação do prédio da Câmara. E ganhou R$ 434.964,44 para isso, segundo o Legislativo de Cuiabá.

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