Índios paraguaios fazem protesto para depor presidenta do INDI
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Por Mércio Gomes Pereira
O novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, bispo católico ligado à Teologia da Libertação, foi eleito cheio de esperanças para o povo paraguaio. Representa uma renovação semelhante à que Lula teve para o Brasil, Evo Morales para a Bolívia e agora Obama para os Estados Unidos.
Um dos seus primeiros atos foi nomear uma índia, Margarita Mbywangui, para dirigir o Instituto Indigenista do Paraguai, o INDI, que é o equivalente à FUNAI. Nada mais justo.
Entretanto, ontem, dia 1º de dezembro, aconteceu uma grande manifestação de índios exatamente contra Margarita. Dizem os manifestantes que ela não atende seus interesses e demandas. Querem-na fora do INDI. Não lhe dão mais respaldo.
Não levou nem três meses para surgir um manifestação desse porte no Paraguai. É uma pena. Na verdade, as demandas dos índios paraguaios são imensas e variadas. Desde a falta de terras, a mais difícil de se obter num país que nunca teve tradição de demarcar terras para os índios, até a falta de assistência médica, sem falar em educação diferenciada.
Quando era presidente da FUNAI tive oportunidade de visitar o INDI e conversar com seu presidente na ocasião. O INDI está localizado num bairro central de Assunção, num velho e dilapidado prédio comprido, com longos corredores em dois andares, de onde se abrem salas com funcionários aparentemente sem terem o que fazer. O vai-e-vem, o conversê é sem fim. O então presidente lastimava não ter recursos para fazer algo pelos índios. O INDI não tem representação pelas províncias, de modo que tem que depender dos reclamos dos índios por telefonema para tentar acionar alguma ação.
Talvez o presidente Lugo tenha tentado melhorar a situação do INDI. Certamente que demarcar o mínimo de terras é parte de seu plano político. No Paraguai, em um censo feito em 2003, foram recenseados cerca de 100.000 índios auto-declarados, vivendo em zonas rurais ou urbanas. Isto sem contar os milhões que falam o guarani, mas que se consideram paraguaios não indígenas. Há uns 15 povos indígenas específicos, sendo que uns 60.000 são Guarani, que lá têm as mesmas subdivisões dos que vivem no Brasil, com nomes diferentes. Os Ñandeva daqui são chamados lá de Chiripá, os Kaiowá de Pai Taveterã. Em 2006 havia apenas uma terra demarcada em nome dos Guarani. As demais comunidades guarani vivem em pequenos lotes no meio das fazendas e sítios particulares. O conceito de tekohá certamente não se aplica por lá. Qualquer terra que chegarem a obter não vão se negar a ocupá-la.
Os demais povos indígenas vivem ao norte, como os Guarayo, no Chaco paraguaio e na fronteira com a Bolívia. Há um povo indígena, Ayoreo-Totobiegosode, que ainda se encontra autônomo na floresta que divide o Paraguai da Bolívia, sendo que suas terras estão sendo tomadas e a mata derrubada por duas empresas de agronegócio brasileira.
Muito difícil essa situação indígena. Acho que a situação vai se agravar na medida em que os índios vão exigir e protestar que o novo presidente cumpra suas promessas, e ele não seja capaz de cumpri-las a contento.
Não adianta querer ironizar e comparar essa situação com a do Brasil. O buraco no Paraguai é bem mais embaixo.
* Antropólogo Mércio P. Gomes
Rio de Janeiro, Sudeste, Brazil
(Ph.D. University of Florida, EUA, 1977), Professor da Universidade Federal Fluminense, ex-Presidente da Funai, autor dos livros "Os Índios e o Brasil", "O Índio na História", "The Indians and Brazil", "Darcy Ribeiro", "A Vision from the South", e "Antropologia".

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