Dos buracos, o sustento
Três sem-terra passam o dia tapando improvisadamente crateras entre Sinop e Itaúba, em troca de colaborações
Publicado por Kassu
AGUA BOA NEWS
Trabalhadores afirmam que, sem cestas básicas, uniram o útil ao útil: enquanto contam com R$ 20 diários, motoristas têm passagem facilitada
Trabalhadores rurais do norte do Estado encontraram nos buracos da BR-163 uma forma de ganhar dinheiro. Nos 96 quilômetros de estrada que ligam os municípios de Sinop e Itaúba, eles passam o dia todo aterrando os desníveis da pista enquanto o poder público não toma providências. Gratos, os caminhoneiros e viajantes retribuem com pequenas quantias em colaboração.
Carriola e enxada são os instrumentos que os trabalhadores precisam para exercer a função de “tapa-buracos”. Alaércio Aparecido Faveiro, 24, e os colegas, Carlos Alexandre Santos, 24, e Odair José dos Santos, 28, contam que há cerca de um mês começam a jornada às 6 horas e param ao escurecer. O serviço rende em média R$ 20 diários a cada um.
Enquanto Carlos carrega a carriola com terra retirada da margem da rodovia, Odair compacta o material já depositado nos buracos e aguarda Alaércio despejar em outra cratera aberta no asfalto remendado a terra vermelha. “Desde a semana do Natal, quando muita gente estava viajando pela estrada, percebemos que muitos pneus estavam estourando por causa dos buracos. Motoristas iam nos pedir ajuda no acampamento em que moramos, a 10 quilômetros da BR, e então, tivemos essa idéia”, explica Alaércio.
Apesar de alguns caminhoneiros ignorarem o serviço do trio, eles afirmam que há os condutores que reconhecem o esforço. É o caso de José Fernando, que diariamente dirige seu caminhão de carga pelo trecho esburacado.
“Eles taparem os buracos ajuda muito a quem está dirigindo. Quase sempre contribuo com R$ 1. É um absurdo a situação dessa estrada e isso me deixa indignado enquanto contribuinte. Só no mês passado paguei R$ 2,7 mil em impostos do caminhão, mas investimento que é bom aqui na BR, nada”, critica.
Os três trabalhadores rurais integram o Movimento Sem Terra (MST). Eles relatam que, como o governo federal não tem enviado as cestas básicas (benefício concedido a cadastrados na organização social), o trabalho informal está permitindo com que o sustento familiar seja garantido. “Os empregos estão escassos nessa área”, diz Alaércio.
Em meio à imensidão da rodovia, o novo posto de trabalho parece promissor. A cada quilômetro que se avança em direção ao norte, a quantidade de buracos não para de aumentar. Em alguns trechos de mão dupla, os carros têm que revezar a passagem em uma única pista, pois o espaço trafegável comporta apenas um veículo. Não raro, os motoristas precisam reduzir a velocidade o máximo possível, quando não há outro meio que não seja entrar nos buracos da pista.
Para os veículos mais potentes, o acostamento acaba sendo a melhor solução. Já para quem está em carro de passeio, é preciso paciência. O trecho de 90 quilômetros entre Sinop e Itaúba acaba sendo feito em três horas de viagem devido às crateras.
Alaércio e os dois colegas sabem que, quando o Departamento Nacional de Infra Estrutura e Transportes (DNIT) recapear a estrada, terão que arrumar um novo emprego. Mas na opinião do caminhoneiro José Fernando, o trio ainda terá trabalho por muito tempo.
“Historicamente essa estrada é ruim assim. É um trecho que não é grande, mas o governo nunca faz nada para melhorar”. A reportagem tentou falar com o superintendente do DNIT em Mato Grosso, Rui Barbosa Egual, mas ele não atendeu o celular. KEITY ROMA/Diário de Cuiabá

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