segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O pai de treze anos e as lições de Montaigne sobre educação

por Paulo Nogueira de Londres

16/02/2009 às 11h45m
Publicado por Kassu
AGUA BOA NEWS



“Ensinam-nos a viver quando passada a vida”, escreveu Montaigne em seus Ensaios. Montaigne estava tratando especificamente da educação das crianças. É uma leitura inspiradora para qualquer pessoa que tenha filhos. E mesmo para quem não tem, tamanha a sabedoria colocada em cada linha. Montaigne dizia que era vital ensinar às crianças a filosofia, entendida aí como a “arte de viver”. “Centenas de estudantes contraem doenças venéreas antes de chegarem a aprender o que Aristóteles diz da temperança.” Isso quer dizer: antes que meninos e meninas se lancem à vida sexual deveriam aprender o que os sábios têm a ensinar sobre a moderação. Me lembrei dessa passagem de Montaigne ao ler uma história que chocou a Inglaterra nestes dias. O caso de Alfie Patten, um garoto de treze anos que acaba de se tornar pai. Sua namorada tem quinze. Alfie tem cara de bebê e menos de um metro e meio, o que deu um ar ainda mais dramático à história. “Pai aos treze” foi a manchete vendedora do tablóide The Sun. Uma jornalista disse que a namorada de Alfie parece ser sua mãe. (Na foto acima, o casal e o bebê). Perguntaram a Alfie o que ele ia fazer “financeiramente” para cuidar do filho. Ele perguntou, de volta, o que era “financeiramente”. Tudo que ele parece saber de dinheiro é que de vez em quando seu pai lhe dá uma nota de dez libras.

A Inglaterra tem o pior índice de gravidez de adolescentes da Europa. É um assunto que incomoda os ingleses tanto quanto os bônus milionários pagos a banqueiros que terminaram por levar seus bancos à quebra. Humilha-os. Comove-os. Até o primeiro-ministro Gordon Brown se pronunciou sobre o caso. A mídia vem fazendo uma grande cobertura. Do assunto. O jornal The Times informa que Alfie não é o pai mais jovem já identificado na Inglaterra. O recorde melancólico está nas mãos de um certo Sean Stewart. Em 1998 ele se tornou pai aos doze anos. A mãe tinha dezesseis. Os dois se separaram seis meses depois de o bebê nascer.

Volto a Montaigne e a suas palavras sobre a importância de ensinar filosofia - entendida como a arte prática de viver, repito - aos estudantes desde cedo. “Faz-se muito mal em pintar a filosofia como inacessível aos jovens, e em lhe emprestar uma fisionomia severa, carrancuda e temível”, escreveu Montaigne. “Quem lhe pôs tal máscara falsa, lívida, hedionda? Pois não há nada mais alegre, mais vivo e diria quase mais divertido. Tem ar de festa e folguedo. Não existe onde haja caras tristes e enrugadas.” Não existe também, se pode acrescentar, onde haja um pai de treze anos.

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