sábado, 25 de julho de 2009

Conheça melhor o mundo - Causos de Viagem: 4 dias de veleiro no Caribe

Por Cláudia Carmello - 25/07/2009 às 20h39
Edição para Água Boa News Kassu

(entre Colômbia e Panamá, sob o comando de dois alcoólatras inveterados)


{Índias kuna em San Blas}


Inauguro a segunda seção do blog hoje. Causos de Viagem é onde eu e amigos pé-na-estrada vamos contar “a” história de viagem. Aquela que marcou, que foi o grande mico ou a grande epifania, aquela que virou a piada ou que (cada um sabe o seu porquê) mudou as “coisas”.

E inauguro a seção com classe. Com o causo do meu querido grande amigo Maurício Monteiro Filho. Também jornalista, também viajante. E que se meteu numa jornada surreal a bordo de um veleiro. Seu objetivo era ir da Colômbia ao Panamá pelo mar. Mas, como acontece tantas vezes quando estamos pelo mundo, o seu objetivo acabou perdendo completamente a relevância na história.

Esse cara aqui abaixo conseguiu, em 4 dias, viver a “realização máxima” desse blog. Viajou devagar. Verde. E, amigo, o que é que foi essa experiência?


{Posto de Imigraçao em San Blas: rá, se toda imigração fosse assim…}


“Os acontecimentos que se seguem fizeram com que eu e meu irmão valorizemos mais a vida, os amigos e, sobretudo, a terra firme.

Antecedentes: já passamos pela Venezuela, onde ficamos uma semana entre Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, e Los Roques, um lugar paradisíaco no Caribe venezuelano. (Se não fossem as cidades horríveis, onde se perdem carteiras com todos os cartões de crédito te forçando a usar seu próprio irmão de banco, a Venezuela seria um país legal). Depois, uma noite em Cartagena só para embarcar na jornada maluca que vai colorir esse relato: quatro dias a bordo de um veleiro comandado por dois alcoólatras inveterados.

O capitão era um franco-canadense, Marcôs, putanheiro obsessivo, mas um cara legal. Seu imediato era um nova-iorquino insuportável, Turner Armstrong, que parecia um desses cachorrinhos mirrados que acabaram de passar por um teste de cosméticos malfadado e ficaram só com um restolho de pelagem na cabeça. (Ele também tem um barco, que fica ancorado no Panamá. O nome da embarcação: BLOME. Fale isso em voz alta com a devida pronúncia americana e descobrirá a maior fixação do Turner). O resto da galera era firmeza: um casal de alemães, uma australiana, um belga que não ri, eu, meu irmão (o Guto). E um cara mala, escritor inglês, que transformava qualquer mísero episodio em “capítulos do seu livro”.

{O capitão do veleiro, Marcos. Você confiaria?}



Tudo começou quando a gente cruzou com um brasileiro na Venezuela. Nosso objetivo era ir para o Panamá. A gente já queria ir de barco, mas achava que o serviço era meio incerto e que teria que ir de avião. Porque não existe outra forma de cruzar da Colômbia pro Panamá por terra – a não ser a pé, contratando guias locais e com uma altíssima dose de risco de não se chegar ao destino.

(Essa região é chamada de Darién Gap, e por ela até chegou a passar a rodovia Panamericana, aquela que conecta Ushuaia ao Alasca. Mas um misto de descaso público, grandes interesses hoteleiros e de exploração dos recursos naturais locais acabou fazendo com que a floresta reivindicasse de volta a soberania da área, e encobrisse de vez o asfalto. Algo parecido com o que rolou com grande parte da Transamazônica).

O brasileiro, Tiago, tava fazendo uma volta ao mundo de dois anos, a terminar no fim de 2009, na Rota da Seda. Foi ele que falou pra gente ir até um albergue chamado Casa Viena, em Cartagena. Era o mais concorrido da cidade e agendavam todos os barcos pro Panamá.


{”Baía de Cartagena: cidade iradíssima, merece um retorno”}


Chegamos em Cartagena pelas 22h30, fomos pro albergue e eles já ligaram pro capitão Marcôs. Pela meia-noite, a gente já tinha fechado o negócio por US$ 250 por cabeça, pra sair no dia seguinte rumo a Portobelo, Panamá, com parada no arquipélago de San Blas – que não dá pra descrever como é bonito. Comemoramos o acordo tomando umas Águilas em um bar de freqüência duvidosa.

Dia seguinte encontramos o resto da galera que integraria o cruzeiro maluco, e fomos comprar mantimentos num supermercado perto do porto. Em nossa ingenuidade, compramos comida para vários dias: coisas para fazer um café da manhã reforçado, frutas, macarrão… Tive até aquela idéia clássica dos encontros multiculturais: cada um iria fazer um prato típico de seu país.
Então, me muni de leite de coco, robalo, pimentões, coentro pra hastear a bandeira culinária brasileira com uma moqueca. (A comida típica que Simon, o escritor inglês, decidiu fazer era simples: pão preto e muita cebola roxa. Muita. E só pra ele). Pra finalizar, claro, nos abastecemos de cerveja e álcool para meses.



{Partindo de Cartagena: de mala, cuia, rango, álcool e ganas, muchas ganas}



Saímos pelas 19h. Não sei se era só o nosso veleiro, ou se são todos assim, mas a lentidão era absurda. Se um nadador amador passasse nadando ao nosso lado, a gente perderia ele de vista em dois minutos. Com isso, chegamos ao mar aberto e as ondas começaram a ficar muito grandes. A galera começou a ficar mal.

Nem eu nem o Guto já tínhamos passado mal em barcos, mas nesse rodamos legal. Ficamos sem comer direito por uns três dias, o que os comandantes acharam ótimo porque comeram às nossas custas e ainda beberam toda a cerveja que eu tinha comprado, à razão de umas duas latas a cada dez minutos.



{Vida vagarosa a bordo}



Com tudo girando, era casca descer pra dormir nas camas internas, onde reinava um cheiro de diesel, maresia, cebola – valeu, Simon – e uma população de baratas. Então a gente ficava largado no deck, com o céu mais estrelado que eu já vi, e nenhuma terra firme visível depois de umas 5h de navegação. O sossego acabava sempre que a gente tinha que guiar o barco – porque todo mundo guiava, em turnos de 2h.

Guiar o barco significava manter-se na rota que o capitão dizia, e que a gente acompanhava numa bússola que ficava oscilando em cima do timão. Parece um trabalho de mico adestrado, mas ter que olhar pra bússola de tempos em tempos, iluminada por uma luzinha que era a única visível no Caribe àquela altura da noite, era o caminho sem volta pra tontura, enjôos e outras sequelas marítimas.

Além disso, em alto-mar, as ondas batiam na amurada do veleiro, jogando a gente 30, 45 graus pra longe da rota e nos obrigando a ficar alertas o tempo todo. A primeira noite foi bem turbulenta por tudo isso.


{Enfim, San Blas, Panama. Que Caribe é esse?}



Mas pelas 10h a gente chegou em San Blas, no posto de imigração mais animal que existe, sugestivamente chamado de El Porvenir. Fica numa ilhota de uns 2km quadrados, e lá a gente entrou definitivamente no Panamá.

A região é território autônomo dos índios kuna, uma tribo muito caracterizada ainda, que costura uns panos chamados molas, muito bonitos. Assim que a gente ancorou eles já chegaram em canoas oferecendo o artesanato, tudo cobrado em dólar – a moeda oficial do Panamá é o balboa, mas só se usam dólares pra tudo; os balboas que existem são sobras muito antigas e só moedas pequenas.

Então a gente foi pra outra ilha toda tomada por cabanas kuna, onde comemos peixe, caranguejo, lagosta. Nos cobraram US$ 4 dólares por cabeça. De opcional, tinha um self-service psicotrópico (com maconha e pó à vontade). O que certamente se deve ao local estratégico do povoado kuna na rota marítima de tráfico de drogas da América do Sul para a América do Norte.

Nessa noite, dormimos ancorados por ali e seguimos viagem no dia seguinte. Mais mar aberto, menos mundo girando.
E a noite caiu de novo, pra começar a bizarrice de vez.

Eu tava guiando o barco, pela meia-noite. Só estávamos eu e o Turner acordados. Eu tava tendo uma sensação inédita de iluminação, falando abertamente de relacionamentos, mazelas humanas e tudo mais, e o cara acompanhando. Então, ele percebeu que a gente tava indo muito, muito rápido – 7 nós, o que é extraordinário pra um veleirinho daquele. E decidiu que iríamos só velejar, ou seja, desligar o motor e ficar só na base das velas. E assim rolou.

Nisso, o capitão acordou, subiu, fez um xixi pela amurada do barco, desceu e já voltou fora de si: QUEM TOCOU NO MEU BARCO? QUEM FOI O FILHO DA PUTA QUE MEXEU NO MOTOR? E começou a procurar a chave, pra religar a parada.

E então meu interlocutor, que só estava eloquente porque estava bêbado que nem um gambá, sacou que tinha esquecido onde tinha deixado a chave. O Marcôs desceu, achou uma chave reserva – ou a gente ainda estaria no Mar do Caribe a essa hora – e voltou pronto pra treta.

Começou a empurrar o Turner pra baixo: “É uma ordem, vai dormir, eu sou o capitão aqui”. E o outro desceu, mas tentou voltar. Então o Marcos começou a chutar a cabeça dele pra mantê-lo lá embaixo, várias vezes, com a sola do pé na carequinha do Turner. E eu perdendo o rumo do barco, de tanto gargalhar.

(A sensação de segurança é indescritível quando você, que nunca navegou na vida, percebe que depende de dois bêbados pra chegar vivo em terra, e que eles estão se dando porrada na sua frente. E eu achando que, naquela conversa, finalmente estava sendo compreendido…)




{E quando você pensa que já chegou ao fundo do poço…}


Tocamos o barco. Todo mundo já de muito saco cheio de mar e paisagens maravilhosas. Casca é que o dia seguinte só trouxe mais desolação. A gente devia começar a rumar pra costa, mas o vento virou e dos 7 nós a gente caiu pra 0.7, quase parando em alto mar.

Logo, já era noite de novo e a gente tinha andado em 20h o que devia ter feito em 4h. Isso exigiu manobras ousadas dos velhos lobos escolados do mar, tipo ficar acordado e reduzir a dose de cerveja e rum em 1%.

E eventualmente procurar o vento, fazendo “tacks” – uma virada de 45º que exige mudar todas as velas de lugar, para buscar o vento. Pra isso, a gente tinha que sair de perto da costa e ir pro alto-mar de novo, até achar o ponto onde ele estivesse soprando mais forte.

E lá estava eu no timão de novo: tinha assumido já fazia umas 4h, mas tava pilhado pra chegar e fui ficando, em busca de mais iluminação. Que veio em forma de uma tormenta bizarra – depois, os alemães disseram que seus pais haviam lido notícias da tormenta nos jornais alemães. A gente tava no meio do nada, não se via dois metros além do barco, eu já tava encharcado, esconjurando Deus, as ondas grossas pra cacete e tinha chegado a hora de fazer outro tack. E lá foram os travados pro deck mexer nas velas e tal.

De repente, veio um puta, PUTA estrondo. Olho pro lado e… A VELA PRINCIPAL ESTÁ RASGANDO EM TODA A EXTENSÃO, NA TEMPESTADE, NA PORRA DO CARIBE. O puto do inglês comemorando mais um capítulo, eu cascando o bico na desgraça e meu irmão acordando com a cara mais revoltada da história.

Então os dois comandantes malucos, mais temerosos que a gente, mandam, pra dar segurança pra galera: “Vamos tentar nos arrastar até onde der”. (Valeu, capitão, pelo incentivo).


{Isla Grande: não era o objetivo. Mas, a essa altura, o objetivo era sair vivo}



Acabamos chegando de manhã numa ilha, Isla Grande, lindíssima, e os caras disseram, como se não fosse o Eldorado: “Dá pra ir de ônibus daqui”. Ônibus? Cara, não demorou cinco minutos pra todo mundo estar pronto pra cair fora.

Experiência de imersão iluminada no Mar do Caribe: check! Sonho infantil de ter um veleiro e navegar pelo mundo: olvidado.

De lá, seguimos pra Panama City, os 6 mais unidos do que nunca depois da loucura. Dois dias depois nos separamos: eu e meu irmão tínhamos uma América Central toda pela frente. Em 1 mês e meio, percorremos Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Honduras e Guatemala. Em Guatemala City, ele e eu – Sal e Dean– nos despedimos. Voltei pra São Paulo, e ele seguiu estrada acima até Nova York”.

Maurício Monteiro Filho

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