quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Após 20 anos de vício e 45 internações, ex-usuário conta como superou o crack

David Edinger, 35 anos, viveu na rua em SP e diz que tentou matar mulher.
Ele se mudou para o Ceará e tenta se manter ocupado para evitar recaída.



Mirella Nascimento Do G1, em São Paulo
Publicado por Kassu - 28/10/2009 às 07h52



David Edinger mora em Fortaleza, onde gosta de surfar

Durante quase 20 anos como usuário de crack, o paulista David Edinger perdeu o contato com a família, morou na rua em várias cidades, encarou 45 internações e tentou matar a própria mulher. Desde que decidiu se livrar da droga, há cerca de um ano, o auxiliar de escritório de 35 anos quer terminar os estudos em Fortaleza (CE), reencontrar os amigos e parentes e mostrar para os outros como é possível vencer a luta contra a pedra.


Ao ver as reportagens sobre o caso do pai que entregou o filho de 18 anos à polícia depois que ele estrangulou uma amiga, no último fim de semana, Edinger procurou o G1 para contar a sua história. Para ele, o problema do crack não se resolve apenas com internação, mas com uma "mudança radical, na qual temos que nos afastar de qualquer área que possa causar riscos".


"Eu só vou me manter afastado da droga se estiver ocupado"

O risco do qual ele fala é se entregar novamente às drogas. Para manter o pensamento longe do crack, Edinger procura estar sempre ativo. "Eu só vou me manter afastado da droga se estiver ocupado. Eu trabalho, faço curso de informática e de inglês. Quando sobra tempo, vou à praia surfar, ando de skate, faço artesanato na casa de um amigo. Eu sei que, em uma fração de segundo, posso jogar tudo para o alto. Mas gosto da minha vida de agora e não quero jogar isso tudo fora", disse, em entrevista por telefone desde a capital cearense.


O início do vício

O primeiro contato de Edinger com as drogas ocorreu em 1989. Com 15 anos, ele morava com a mãe e os irmãos na Vila Santa Catarina, na zona sul de São Paulo (SP). "Na rua, a gente transformava sobras de cocaína em casquinha. Algum tempo depois, começou a aparecer o crack como é hoje, em pedra", lembra. Não demorou muito, o adolescente estava viciado.


Durante cerca de um ano, ele conseguiu conviver com a família e os colegas de escola. Mas a fissura pelo crack o levou a cometer furtos dentro dentro da própria casa. "Meus irmãos trancavam as coisas de valor com cadeado, mas eu arrombava", conta. Depois de alguns anos de constantes fugas de casa, Edinger foi morar nas ruas de São Paulo. "Eu estudava e trabalhava como office-boy em uma transportadora. Foram várias oportunidades que eu joguei fora por causa da droga".


O fundo do poço


No auge do vício, Edinger viveu na rua, especialmente na região conhecida como Cracolândia, no centro de São Paulo. Sem paradeiro, chegou a viajar para outras cidades, onde ficava por alguns meses até voltar para a capital paulista. Ao longo dos anos, conheceu pessoas que ajudaram a alimentar a dependência e outras que tentaram tirá-lo do vício. Entre 2000 e 2005, chegou a morar com uma mulher que conheceu em Natal, durante um dos tratamentos.


"Tentei matar minha ex-mulher sete vezes"

Ao todo, ele contabiliza 45 internações. "Nunca fiquei mais do que três meses internado. Sempre dava um jeito de sair e voltar para a rua e para droga", conta. A mulher tentou resgatá-lo do fundo do poço, mas acabou desistindo do casamento depois de ser agredida algumas vezes. "Eu tentei matar minha ex-mulher sete vezes. Na última delas, foi exatamente como esse rapaz, a peguei pelo pescoço, num ato totalmente inconsciente. O usuário fica fora de si", revela.


A jornada de volta

Há pouco mais de um ano, sem emprego, sem família, sem mulher e ainda vivendo na rua, Edinger resolveu se mudar para Fortaleza. Conhecia a cidade de uma das tantas viagens que fez durante o período de vício. Durante cerca de 50 dias, pegou ônibus, pediu carona, andou a pé pelas estradas de vários estados brasileiros. "Tinha crack em todas as cidades por onde eu passei e eu usei em todas, até nas mais pobres, no interior do Nordeste", lembra.


"Na loucura pela droga, a gente tem um poder de mentir muito grande"

No caminho, ele contou com a ajuda de pessoas e instituições públicas e privadas. De cidade e cidade, contava histórias mirabolantes e convencia os outros de que precisava de ajuda. Com o dinheiro que conseguia, comprava mais droga e passagens de ônibus. "Na loucura pela droga, a gente tem um poder de mentir muito grande. Eu ia até a delegacia da cidade e falava que tinha sido roubado lá. Antes de ser descoberto, fugia para outra. Eu gosto de ler, tenho boa aparência. Mesmo drogado, eu conseguia manipular as pessoas".


Ao chegar a Fortaleza, foi morar em um albergue, mas não aguentou a disciplina imposta pela entidade. Voltou para a solidão da rua. Conseguiu um emprego em um lava-rápido, que pagava o suficiente para comer algo e sustentar o vício. Um dia, como num estalo, decidiu mudar de vida. "Não ia adiantar andar tudo o que eu andei para continuar nessa vida. Parece que aconteceu alguma coisa dentro de mim. O dependente químico foge da realidade. Eu fugia das cidades, mas o problemas não estava nelas, estava em mim".

Edinger mantém contato com amigos e familiares por telefone e pela internet.

O recomeço

Com a ajuda de um empresário que resolveu apostar na sua recuperação, Edinger encontrou um lugar para morar. Convencido de que poderia vencer o vício, procurou o Centro de Atendimento à População de Rua de Fortaleza, onde recebeu acompanhamento de psicólogos e assistentes sociais.


"Não sei o que aconteceu comigo, mas chegou um momento em que eu disse 'chega de sofrer'", recorda. Em menos de um ano, conseguiu um emprego de auxiliar de escritório, finalizou o Ensino Fundamental e se matriculou nas aulas de informática e inglês.


"Estou reeditando a minha vida. É quase como uma nova identidade"

Mesmo sem saber onde a mãe mora, voltou a ter contato com a família. Em seu perfil no site de relacionamentos Orkut, exibe fotos na praia, na companhia de amigos e de suas peças de artesanato. Pelo site, reencontrou amigos e familiares. "Algumas pessoas se surpreendem ao ver como estou bem. Tinha gente que achava que eu estava morto, preso", relata.

Depois de tantos anos usando drogas, ele se considera "agraciado por Deus". "Os médicos dizem que eu tenho muita sorte. A maioria não dura tanto tempo usando crack", diz. A vitória sobre o vício é construída diariamente. "Eu tenho medo. Tem dias em que eu sonho que estou fumando, prendendo a fumaça. Quando eu acordo e sopro ar, vejo que era um sonho e fico aliviado", confessa. "Mas não quero jogar o que eu conquistei fora. Estou reeditando a minha vida. É quase como uma nova identidade. E é muito gostoso viver assim", resume.

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