sábado, 27 de março de 2010

Vaidade em excesso pode colocar criança em risco

Edição: Meider Leister
Fabiana Junqueira
UOL Estilo


Todos os sábados, o ritual se repete: a gerente de marketing Mariângela*, de 36 anos, tem horário fixo no salão de beleza perto de casa para fazer escova, mão, pé, depilação, hidratação e o que mais precisar naquele momento. A filha Júlia*, de 4 anos, a acompanha. Em vez de ficar brincando em um canto, como seria comum a uma criança de sua idade, Júlia também faz escova nos cabelos e pinta as unhas dos dedinhos das mãos de pink.

Assim como acontece com algumas mulheres maduras, o figurino da garotinha para ir ao salão é calculadamente planejado: calça e blusinha grife infantil famosa; nos pés, um par de Melissas de saltinho, e gloss rosinha nos lábios. Algumas clientes do espaço acham a cena “engraçadinha”, outras, meio que constrangidas, se limitam a observar.

“Sou vaidosa e acho normal estimular a vaidade de minha filha. Que mal há em ter os cabelos sedosos e as mãos benfeitas? Quero que ela aprenda a cultivar a autoestima desde cedo”, justifica Mariângela que, ao tomar ciência de que o teor dessa reportagem era um alerta, pediu para que as duas fossem citadas somente com pseudônimos.

Em um país onde a infância está cada vez mais curta, cenas como essa vêm se tornando corriqueiras. As celebridades e a curiosidade que mobilizam também influenciam – bastar ver alguma foto de Suri Cruise, filha dos astros Tom Cruise e Katie Holmes, que aos 3 anos de idade já usa sapatos com saltinho, batom e está sempre fashion. Ou de Lila Grace, 7 anos, herdeira da top model Kate Moss e dona de um guarda-roupa recheado de bolsas e roupas de grife. Para Maria Regina Domingues de Azevedo, psicóloga do Ambulatório de Hebiatria da Faculdade de Medicina do ABC, as crianças sempre cultivaram um certo grau de vaidade, almejando a aquisição da identidade adulta, mesmo que antes do tempo.

“Em proporções moderadas, a vaidade infantil é perfeitamente normal e até reflexo de uma autoestima positiva. O problema é quando esse comportamento passa dos limites”, opina a especialista, que acredita que o “boom” de crianças vaidosas tem muito a ver com os tempos atuais. “A sociedade pós-moderna valoriza o ter em detrimento do ser, e a criança não está alheia a isso. Ela raciocina que, se não mantiver um padrão de perfeição estética, os outros não irão gostar dela. Assim, cria sua própria armadilha, pensando ter encontrado a fórmula da felicidade.”

Segundo o raciocínio da psicóloga, em muitos casos o desejo infantil de participar do universo adulto é legitimado pela própria família. Pais vaidosos e sem senso crítico às imposições sociais têm grande chance de “produzir” filhos idênticos. Afinal, as crianças sempre querem imitá-los, eles são exemplos, seus modelos de identificação e sua principal referência. “Se os pais já estão influenciados por esses valores, dificilmente os filhos serão diferentes”, diz Maria Regina.

Mais do que consentir, alguns pais também incentivam cuidados excessivos com a aparência, chegando até mesmo a criar uma ditadura mirim da beleza. A mãe não se contenta com a própria obsessão em ser magra e quer que a filha adote o mesmo comportamento. Muitas atitudes maternas são entendidas pelas crianças como: “Você quer crescer e ser uma mulher gorda e feia?” Resultado, a garota pode crescer comendo doces e guloseimas às escondidas e, depois, forçando o vômito. Mais tarde, na adolescência, passa a ser mais uma vítima da bulimia e da anorexia. Além de distúrbios alimentares graves, as crianças também se tornam propensas a desenvolver transtornos de ansiedade, estresse e depressão.

“Focar nessa exigência da vaidade faz com que a criança tenha uma saída precoce da infância, pois começa a preocupar-se antes da hora com sua aparência, com roupas, peso, e a olhar e ser olhada pelo mundo de outra forma”, alerta a terapeuta infantil Daniella Freixo de Faria, de São Paulo. “As etapas do crescimento existem para que esse crescimento aconteça de maneira gradativa, processual e repleta de experiências que trazem aprendizado. Colocar uma criança para lidar com assuntos que ainda não domina traz sofrimento e angústia, já que esse movimento não é um movimento natural. Uma criança sem sua naturalidade e espontaneidade pode não estar feliz, mesmo usando tantas roupas bonitas, produtos e maquiagens”, afirma. E como a criança percebe a atitude de uma mãe que passa chapinha no seu cabelo ondulado? Será que ela pode registrar a mensagem "implícita" de que só quem tem cabelo liso é bonita?

“Infelizmente, pode”, responde a terapeuta Daniella. “E isso interfere na construção da imagem interna. Quanto mais a criança puder receber reconhecimento, amor e aceitação por ser exatamente como é, melhor”, destaca.

Rita Calegari, psicóloga do Hospital e Maternidade São Camilo, de São Paulo, lembra que, originalmente, a palavra vaidade não tem conotação "saudável", significando "desejo exagerado de atrair a admiração ou homenagens dos outros; ostentação; futilidade; orgulho". “Nós acabamos por perdoar essa inclinação da vaidade em ser negativa, tentando dar a ela contornos menos pecaminosos.

A vaidade é uma expressão típica, porém não exclusiva dos seres humanos. Bichos também possuem essa característica, tanto que a usam para dominar ou seduzir com o propósito de acasalar e perpetuar a espécie. Às vezes, associamos a vaidade com o asseio, o autocuidado. Pensando assim, em torno dos 2 anos, a criança já começa a imitar comportamentos de quem ela admira: mamãe, papai, irmão mais velho ou artista da TV. A menina pode imitar a mãe querendo usar o salto alto ou pintando as unhas, ou o menino ao pai, imitando fazer a barba e passar perfume”, comenta Rita.

Como em certa idade os pais cuidam do asseio da criança, já que ela é incapaz de fazê-lo sozinha, são eles (os pais) que incentivam ou ensinam parte desses hábitos que depois iremos chamar de vaidade. De acordo com Rita Calegari, estimular a vaidade no seu sentido original é sempre complicado. “Estimular o autocuidado como uma parte fundamental do desenvolvimento e da construção da autoestima é valioso.

Mas a vaidade desvinculada de algo mais saudável, como é o autocuidado, pode fazer mal, pois incentiva a criança a ‘parecer’ e não ‘ser’ alguma coisa”, assegura.

Essa é uma preocupação da rede de academias My Gym Brasil, especializada em atender crianças a partir das 6 semanas até os 13 anos de idade. “Nosso método é não competitivo. É voltado para a construção da autoestima, como a saúde e o bem-estar dos pequenos. Nas aulas, mostramos a importância de estarmos sempre em movimento, e de se sentir bem consigo mesmo. Ensinamos que boa forma está ligada a qualidade de vida, em cooperar com os outros e dar bons exemplos, e não em estar gordo ou magro”, afirma Thais Japequino, diretora executiva da My Gym Brasil. “Em nosso espaço, as crianças têm a oportunidade de vivenciarem a infância. Conseguimos direcioná-las sempre para a não competição, ou comparação. Parece que aqui elas esquecem que querem ser adultas”, conta.

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