quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A conta da devastação em Mato Grosso: Socorro às nascentes do Xingu (2)

Vamos voltar então ao município de Querência, em Mato Grosso, onde começamos a mostra o problema criado por um grave crime ambiental cometido no passado.

Um dos maiores desmatamentos do município de Querência foi feito pela fazenda que fica nas margens do Rio Suia, um dos principais afluentes do Xingu.

A Roncador tem 151 mil hectares, território igual ao da cidade de São Paulo. Metade da área foi desmatada para a formação de pastagens, onde se cria 90 mil cabeças de gado. É a maior fazenda de pecuária de Mato Grosso e uma das maiores do Brasil.

Na época da abertura da Roncador o desmatamento atingiu muitas nascentes e beiras de rio. Várzeas foram drenadas e a água desviada por canais para dar de beber ao gado.

Dentro da área da Fazenda Roncador existem 93 nascentes. Sessenta e três terão de ser recuperadas. São áreas como a do Rio Cateto.

O trabalho já começou com o isolamento do lugar. Agora, a fazenda pretende comprar mudas e sementes de espécies nativas da região para reflorestar quatro mil hectares de nascentes e matas ciliares.

Outro problema sério é a degradação das pastagens, que hoje estão sujeitas a erosões como a que já começou a assorear o Rio Betis, formador do Xingu.

Caio Penido Della Vechia, que herdou do pai dele a tarefa de consertar o erro do passado, disse que o desafio é grande, mas está disposto a encarar o problema de frente.

“O que dá para resolver a gente já está adiantando. A parte de nascente é um pouco difícil porque não tem infra-estrutura na região para conseguir fazer com a rapidez que a gente gostaria. Não é como plantar soja ou capim que já tem uma tecnologia desenvolvida para isso, que já tem formas de calcular tudo. É uma coisa nova que está sendo desenvolvida. A gente está precisando do auxílio para como reflorestar as nascentes, como ser uma recuperação eficiente”, disse Della Vechia.

Para fazer a recuperação da área a Fazenda Roncador conta com o apoio dos técnicos da Aliança da Terra. Aline Maldonado mostrou o diagnóstico da fazenda. “O mapa de conservação do solo mostra os pontos que precisam de melhoria e os pontos onde tem controle de erosão”, explicou.

“Esse diagnóstico, pra gente, é um instrumento de trabalho fantástico. A gente fez um cronograma. Eu acho que em seis meses a gente resolve essa parte de erosões”, prevê Della Vechia.

Outra providência que a Fazenda Roncador terá que tomar é o isolamento das margens dos rios para evitar a entrada do gado nas áreas de proteção permanente, onde a vegetação natural já se encontra em estágio de regeneração. Só para cercar as duas margens do Rio Betis a fazenda terá que gastar R$ 280 mil.

“O custo é alto, mas temos que fazer. Agora, a gente vai procurando alternativas. Essa era uma área que a gente ocupava no período da seca. Então, a gente tira o gado do pasto e confina”, explicou Della Vechia.

Hoje, a Roncador não pode mais avançar no que restou de floresta na área da fazenda. São 75 mil hectares de mata virgem que abrigam inúmeros formadores do Xingu. É um tesouro que a vai integrar a reserva legal da propriedade.

Os técnicos da Aliança da Terra, em parceria com o Ipam, Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia, estão analisando a qualidade da água dos rios da Fazenda Roncador e monitorando a fauna existente. O biólogo Osvaldo Carvalho instalou câmeras com sensores automáticos que disparam quando algum animal entra na frente. Onças pintadas e pardas já foram flagradas de noite e de dia:

“Os grandes carnívoros, como a onça, são bons indicadores. Se há animais que a gente chama de topo de cadeia, que tem um requisito alimentar muito grande, eles meio que indicam que os outros animais dentro da cadeia também estão presentes”, esclareceu Carvalho.

Vamos contar qual o dano ambiental de uma grande fazenda de soja de Querência. A Tanguro pertence ao Grupo André Magi e cultiva 30 mil hectares de soja. Os técnicos da Aliança da Terra identificaram 400 hectares de área de preservação permanente em estágio de degradação.

O ponto positivo é a preservação de uma reserva legal de quase 50 mil hectares de mata nativa intacta. É de onde a fazenda colhe sementes para recuperar a área degradada. São 40 espécies diferentes, todas nativas da região, como o jatobá, que está muito bonito nesta época.

“Nós estávamos com uma capacidade de 50 hectares por ano porque estávamos fazendo vários trabalhos paralelos. Como a gente já dominou isso razoavelmente, a partir de agora a gente pretende começar a recuperar em torno de cem hectares por ano”, planeja o agrônomo João Shimada.

Recuperar com o plantio de mudas é um investimento alto, que muitas vezes foge ao alcance da maioria dos produtores. Mas existem outras alternativas, como explicou o biólogo Oswaldo Carvalho.

“Se você isolar e não tiver mais gado, com o passar do tempo a própria natureza vai recuperar essa área como alguma coisa similar a o que se tinha. O vento e os animais vão trazendo as sementes e elas vão se desenvolver, mas o processo é muito mais lento”, disse Carvalho.

Não muito longe dali a Fazenda Esperança realizou essa experiência por conta própria. O fazendeiro Jon Carter isolou essa área de 300 hectares ao longo do Rio Muraré e deixou que a natureza fizesse a recuperação.

John disse que para recuperar a área com mudas ele teria que gastar cinco mil reais por hectare. O local era uma pastagem de braquiária que ia até a beira do Rio Muraré. Para destruir a braquiária ele usou o próprio gado. Colocou um excesso de lotação de animais na área durante cerca de oito meses, com o objetivo de rapar o capim. Depois, isolou a área e deixou regenerar sozinha.

“Virou mato de novo. Eu prefiro isso do que gastar cinco mil reais por hectare. É uma fortuna e, com certeza, eu não teria feito se tivesse de gastar esse dinheiro”, disse John.

Ele disse que a qualidade da água do ribeirão melhorou muito com a regeneração da mata porque antes era muito barrenta. “Não tem como explicar. Jogava-se uma moeda e não enxergava no fundo. Agora, dá para enxergar”, lembra John.

Jonh Carter é o fundador da Aliança da Terra. Ele nasceu nos Estados Unidos, onde conheceu sua mulher, a brasileira Ana Francisca Garcia Cid, herdeira da Fazenda Esperança.

Eles foram para Mato Grosso há 16 anos, onde criam 1,8 mil cabeças de gado nelore.

A Fazenda Esperança tem uma reserva legal de 2,6 mil hectares. É uma floresta original que corresponde a mais de 50% da área total da fazenda e deveria estar intacta.

Mas basta sobrevoar o lugar para ver que isto não corresponde à verdade. Há barracos de invasores que foram ao local para retirar madeira e ocupar a área. Além dos invasores, a reserva ainda enfrenta a ameaça do fogo.

Apesar de todas essas dificuldades, a mulher de John, Ana Francisca disse que vale a pena continuar lutando para produzir e preservar. “Há cerca de cinco anos eles fizeram o boicote da soja. Agora, esse ano, nós tivemos o boicote da carne. Eu acho que as propriedades que não se adequarem, não poderão mais fornecer o produto para o mercado internacional”, disse.

John disse que foi para unir os produtores em torno dessa ideia que nasceu a Aliança da Terra. Ele aposta que no futuro quem estiverem em dia com suas obrigações ambientais podem conseguir recursos do mercado de troca de carbono, por exemplo, para proteger suas áreas.

“A conservação vem com custo. Eu acho que seria muito triste se a Amazônia, principalmente, fosse toda devastada. Eu acho que sem a ferramenta econômica ela vai ser devastada”, avisou John.

Hoje, o trabalho da Aliança da Terra atinge 300 agricultores. É uma semente de esperança germinando no entorno do Rio Xingu. Mas para cobrir os 300 mil hectares desmatados nas nascentes ainda vai precisar da adesão de muita gente.

Ver o vídeo clicando aqui
Reportagem do Globo Rural,
publicada pelo EcoDebate, 04/08/2010

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