segunda-feira, 28 de março de 2011

Artigo: O futebol, o Paiaguás e as promessas

Por *Jorge Maciel

As trombetas do Paiaguás, a partir de meados de 2010, sobre obras da mobilidade urbana para Cuiabá ecoaram de forma tão retumbante que alguns visionários supuseram (ou supunham) a transformação de Cuiabá em Detroit, Sidney, Chicago ou Tóquio, metrópolis acobertadas de luzes de neon, avenidas expressamente avantajadas e viadutos misturados feito minhocas na cumbuca de iscas.

Os tambores paláticos precedendo declarações e juras de políticos aparecidos, técnicos herméticos e executivos que preferem mais a bocha ou carteado ao futebol, com o tom superlativo das obras dos BRTs, trincheiras, arena Verdão, alargamento de vias, viadutos, essas coisas, têm sido ouvidos religiosamente, como em missas ou cultos, enquanto que os prazos se esgotam, e são restaurados, e a crença popular se esvai.

Alguns cidadãos esperavam – conforme ruidosamente anunciado – que as obras de mobilidade urbana começassem em novembro de 2010, mas isso já é passado! Cardeais e pajens pouco aflitos do Paiaguás, por fim, há pouco, terminaram convencendo o governador Silval Barbosa de que iniciar as tais obras em julho é razoável, talvez perfeito mesmo será dezembro, quiçá janeiro de 2012, julho ou meses à frente.

Sempre fui, confesso, um cético e desconfiado. Mas não me chamem de radical que eu ponho a mãe no meio. Bem sei que Brasília começou a ser erguida em 1957, após o histórico comício de Jataí (GO) pelo construtor Juscelino Kubitschek. Três anos depois, a promessa virou uma enorme metrópole, hoje, com mais de 2,5 milhões de habitantes. Sei também que com dinheiro em caixa foi construída, rapidamente, a torre Burj, de 160 andares, em Dubai, Emirados Árabes. Da mesma forma, em apenas 90 dias, o então governador cearense Ciro Gomes construiu e inaugurou o Canal do Trabalhador, com 110 quilômetros de extensão, que transfere água do leito do rio Jaguaribe até a capital cearense.

Mas o que isso tem a ver com as obras cuiabanas do pré-mundial? Tudo! Afinal todos esses empreendimentos saíram de promessas subordinadas a decisões. Ocorre que, destes lados, pelo menos no que tange o futebol, o governo é um indiferente contumaz ao que a promessa emana. Por ‘N’ vezes, só para citar um exemplo, prometeu-se a ampliação da capacidade do Dutrinha e até exibiram, com pompas e maquetes, um projeto virtual com mudança total daquela praça ... O que temos hoje? Um estádio “assombrado” capaz de nos deixar rosados de embaraço sempre que algum time e delegação de fora jogam ou passam por aqui! Há pouco mais de uma semana, os refletores do mesmo Dutra voltaram a acender, precários, após três temporadas com jogos sob o sol causticante das 15:30 horas por falta de luz.

Na Várzea Grande, o Dito Souza, anunciado como o segundo estádio até que a Arena do Verdão se apronte, está lá, aposentado e viúvo, como a realização do sonho de moradia de cobras e lagartos e parque de diversão de quero-queros.

Desde que o ex-governador Blairo Maggi e uma multidão festiva ouviram a confirmação de Joseph Blatter: “Cuiabá”, numa explosão de justa alegria, vimos acompanhando, por infelicidade, uma profusão de ‘deixa como está para ver como é que fica’, visitas, mesas fartas com mojica de pintado e danças do cururu, intensa imagem nos jornais e TVs e pouca substância na prática.

Acredito que, fossem deixadas tantas reuniões e vaidades de lado, disputas internas na Agecopa, onde há mais moedas para custos e troca que a caixa forte do Tio Patinhas, já estaríamos com relativo avanço nas obras, ou, pelo menos, com encaminhamento em bom tamanho, dos processos de desapropriação ou captação de recursos para se cumprir as promessas, as antigas e as renovadas.

Há alguns dias, o rei Pelé, certamente tão cético como alguns milhões de brasileiros a respeito das “obras da copa”, declarou que o Brasil corre o risco de pagar o maior mico e fazer uma vergonha nacional por atraso nos encaminhamentos de construção de estádios e obras complementares nas cidades-sedes. Qualquer pessoa em juízo perfeito anui ao fato de que os governos, precipitados, afoitos e ofegantes, cederam às exigências faraônicas da FIFA, como assim o fez o governo sul-africano. Lá, claro, havia dois ou três estádios e a estrutura das cidades exigiam melhorias. Só que o Brasil tem muitos estádios de futebol e não havia a necessidade de demolição da maioria deles (inclusive do Verdão, o daqui); e as nossas cidades carecem apenas de pequenos ajustes para sediar tal torneio.

Quando dos jogos Panamericanos, no Rio de Janeiro, a projeção de recursos para tal maratona olímpica foi de R$ 1,4 bilhão, mas no fim foram gastos mais de R$ 6 bilhões, sem contar que o pessoal do “quero-o-meu” levou (ou lavou) outra fatia poderosa. Será que por aqui essa história vai se repetir?

A falta de transparência, aliada ao “depois eu cuido disso”, a inexistência de respostas sobre projetos anunciados e o próprio status quo do futebol, em completo abandono, são condimentos ideais ou lógicos para alimentar a terrível idéia de que nada estará pronto daqui a menos de dois anos (há a promessa da Copa das Confederações). Tomando exemplos como de Brasília, dos Emirados Árabes, do Ceará e tantos mais, chego, com passageiro calafrio, a pensar na remissão e reexame de rota da parte do governo.

Promete-se, justifica-se e se garante muito, só que, seguramente, o medo de perder a copa é uma realidade coletiva. Ah, Isso é!!

*Jorge Maciel é editor do Futebolpress

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