domingo, 20 de março de 2011

Pesquisadores de Aveiro Portugal descobrem novo roedor no Brasil

Espécie pode ter derivado da acção do rio Araguaia como barreira geológica

2011-03-18 Por: Carla Sofia Flores /www.cienciahoje.pt - ortografia de Portugal
 Animal vive numa zona ameaçada pela intensa exploração agrícola  |Foto: Yuri Leite)
Vive no Cerrado brasileiro, junto ao rio Araguaia (uma das maiores bacias hidrográficas da região centro-norte), e é uma das espécies de mamífero mais recentemente descobertas: o rato arborícola Rhipidomys ipukensisive, que, até então passou despercebido à ciência, foi encontrado e descrito por investigadores da Universidade de Aveiro em conjunto com outras entidades brasileiras.

Muito provavelmente, esta nova espécie terá derivado da acção do rio Araguaia como barreira geológica, que separou duas espécies irmãs de Rhipidomys originárias de uma outra ancestral que ocorria naquela área.

"As duas populações que ocuparam cada margem do rio foram acumulando diferenças até se tornarem espécies distintas, actualmente diferenciadas, tanto a nível molecular como morfológico", explicou ao "Ciência Hoje" a investigadora Rita Rocha, que permaneceu por um longo período de tempo na estação de campo do Centro de Pesquisas em Biodiversidade Tropical-Ecotropical e descreveu este roedor, em colaboração com duas biólogas da Universidade Federal do Espírito Santo.

Rita Rocha foi orientada por Carlos Fonseca, do DBio/UA
O animal apresenta uma cauda a terminar num tufo de pêlos e  manchas de pêlos escuros na parte superior das patas traseiras, o que permite a sua distinção dos restantes géneros próximos que habitam a mesma região.

Além disso, depois de uma intensa amostragem de campo, entre Junho de 2007 e Novembro de 2008, e análises genéticas e morfológicas de várias peles e crânios de museu, os investigadores constataram que tem algumas características nas estruturas cranianas díspares dos seus congenéres.

Existência de mais espécies desconhecidas é provável

A bióloga destacou que a região norte do Cerrado brasileiro, principalmente nas áreas de transição entre este e a Amazónia, "tem sido muito negligenciada quanto ao número de estudos aí realizados", pelo que "a existência de outras espécies desconhecidas para a ciência é muito provável".

Disse ainda que esta descoberta representa "o 'encaixar de novas peças num puzzle', com as quais se pode inferir sobre o modo como estas espécies/indivíduos evoluíram ao longo dos tempos".

A Zootaxa, revista onde foi publicada a investigação, já deu a conhecer outras três espécies de roedores naquela região,  para as quais a sua taxonomia ainda não é conhecida.  Uma delas, a Thrichomys  sp., já tinha sido reportada por outros investigadores. De acordo com a cientista portuguesa, "os estudos moleculares comprovam que é a mesma espécie, no entanto, permanece por descrever até ao momento".

Uma segunda espécie, a Oligoryzomys sp., foi registada pela primeira vez, enquanto a  Oecomys sp. apresenta uma variação morfológica muito grande. "Ainda não conseguimos atribuir estes exemplares a nenhuma espécie descrita, mas estamos a trabalhar para tentar esclarecer esta situação", sublinhou.

Para além da relevância para a biologia, Rita Rocha espera que este estudo alerte as instituições estaduais de Tocantins (estado brasileiro onde decorreu a investigação) para a importância da conservação da área que envolve o rio Araguaia, que está ameaçada  devido à intensa exploração agrícola.

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