segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ilustres visitantes do frio

Leões-marinhos são encontrados em reserva ecológica no extremo Sul do País

Por Terra da Gente 

 - Foto: Arquivo/TG

Uma viagem por belas paisagens, cheia de encontros inusitados com a vida selvagem no extremo Sul do Brasil. É o que vai mostrar o Terra da Gente deste sábado (30). Os repórteres do programa, Marcelo Ferri e Ricardo Custódio, encaram uma aventura para avistar um ilustre visitante: o leão-marinho, habitante das águas geladas da Antártica. O ponto de partida é o município gaúcho de Rio Grande, quase na fronteira com o Uruguai, local da famosa Praia do Cassino, a maior do mundo, com 250 quilômetros de extensão. É nessa praia que os aventureiros acompanham a rotina de pesquisadores para encontrar animais marinhos feridos, sejam eles aves, tartarugas ou mamíferos. Todos são levados para centros de reabilitação, recuperados e posteriormente devolvidos à natureza. Para chegar ao primeiro ponto de observação dos leões-marinhos a equipe do programa precisa alcançar a ponta de uma grande estrutura de rocha e concreto, feita pelo homem para ajudar a navegação de navios cargueiros. O segundo e último ponto de observação desses animais é bem mais distante. Foi preciso atravessar o Estado e chegar à divisa com Santa Catarina. Na cidade de Torres os repórteres se deparam com um litoral bem diferente. Na paisagem surgem falésias, morros e paredões de rochas. No voo de paramotor, todos os detalhes dos mais belos cenários do litoral são apresentados. Na água, a equipe do Terra da Gente encara o mar para chegar à Ilha do Lobos, uma pequena faixa de rocha cercada pela água, onde os grandes animais gostam de ficar. Nas lentes do programa, cerca de 30 leões-marinhos se espremem em busca de espaço. Na Hora do Rancho, o convidado do Jacarejão ensina como fazer uma salada de peixe com grão de bico.

Programa 669 – Ilha dos Lobos

Um outro Brasil se descortina

Viajar ao extremo Sul do País é desvendar outro Brasil, bem abaixo da linha do Equador. Um pedaço brasileiro iluminado pela natureza. Primeiro a equipe do Terra da Gente explorou parte do município gaúcho de Rio Grande, quase na fronteira com o Uruguai, um reduto de imigrantes europeus.

O mais antigo balneário marítimo do Brasil foi criado lá no final do século XIX e, a partir daí, tornou-se um centro de férias para empresários ricos, descendentes de portugueses, ingleses, alemães e italianos. Eles chegavam com muito dinheiro para fazer as apostas no cassino do Hotel Atlântico. Na década de 40, o jogo foi proibido no Brasil, mas o nome permaneceu: Balneário do Cassino.

A maior praia do mundo, também chamada do Cassino, só termina no Chuí, a última cidade brasileira. A faixa de areia tem 250 quilômetros, que pode ser percorrida de carro. No caminho, a equipe deu de cara com aves e outros animais que procuram o litoral para descansar.

Um navio, que encalhou em 1976, serve como refúgio da vida marinha. É só um exemplo dos perigos de se navegar por aquelas bandas. A areia do fundo do mar é muito fina, se movimenta com as correntes e vira uma armadilha invisível debaixo d’água. Para evitar acidentes, o governo do Estado iniciou em 1911 uma mega obra de engenharia com barreiras chamadas de molhes, que avançam quatro quilômetros no oceano e demarcam o caminho a ser seguido pelas embarcações.

Os paredões de pedra dos dois lados evitam que sejam formados os bancos de areia no fundo do canal até a Lagoa dos Patos. Assim, os navios podem navegar tranquilamente. Para quem vem a passeio, os molhes também são atração turística.

Na Lagoa, o destino dos cargueiros é o porto de Rio Grande, o segundo do Brasil em volume de carga. O caminho das vagonetas, uma adaptação criativa dos carrinhos de mina, começa na beira da praia e vai até o fim do molhe Oeste. Um exercício de contemplação. Mas é o outro molhe, ao Leste, que abriga um refúgio incomum. E para chegar até lá foi preciso navegar de verdade.

Molhe Leste, o destino

O molhe Leste foi justamente o primeiro ponto de observação de leões-marinhos na costa brasileira que a equipe do Terra da Gente foi conferir. Sérgio Curi Estima, biólogo do Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (Nema), uma ONG pioneira na preservação da fauna no litoral Sul do País, acompanhou o trabalho. A tarefa não foi simples. Em um barco pequeno que consegue atracar no meio do molhe, há quase dois quilômetros de caminhada a ser percorrido. Ao final deste percurso ainda foi preciso atravessar as barreiras para, então, chegar perto dos bichos.

A obra de engenharia acabou virando refúgio dos leões-marinhos. Lá eles têm águas calmas, alimento em abundância, pedras e blocos de concreto onde podem descansar, sem se preocupar com nada. São vários leões, alguns maiores, mais velhos, e outros bem jovens. Pareciam até não se importar com a presença dos homens, mas acabavam por querer intimidar a equipe, uma forma de se proteger.

O biólogo explica que as marcas no lábio do animal podem indicar disputa com outro macho pelas fêmeas. Quando eles formam seus haréns, têm que defender suas fêmeas e impedir que outros machos entrem na área para copular. Eles acasalam no Uruguai e na Argentina. No inverno, deixam as colônias para não ter que disputar a comida com as fêmeas e os filhotes. Passam metade do tempo na água, se alimentando, e a outra metade no molhe, local importante para que reponham suas energias e voltem no próximo ano para a reprodução.

Espertos, se aproximam facilmente de barcos pesqueiros para tirar os peixes que já estão na rede. O pescador Eder da Costa Ghriga diz que o bicho é preguiçoso e em vez de capturar peixes do cardume, quer pegar o peixe já pescado.

Como é muito grande e forte, o leão acaba rasgando a rede. E, por isso, o convívio com os pescadores nem sempre é pacífico. Alguns machucam e há até registros de matança dos leões. Mas na barra de Rio Grande, homem e animais parecem estar em harmonia.

Museu de pioneiros

Conhecer e proteger o meio ambiente. Esta é uma missão que os pesquisadores gaúchos têm e não é de agora. No município de Rio Grande, o Museu Oceanográfico Prof. Eliézer de C. Rios, fundado em 1953, é muito mais que um lugar de visitação. Nas décadas de 70 e 80, saíram de lá as primeiras expedições científicas para os arquipélagos do Atol das Rocas e de Fernando de Noronha, do outro lado do País.

O biólogo do museu oceanográfico, Dimas Gianuca, explica que essas ilhas eram usadas como áreas de reprodução de tartarugas marinhas, o que teve um impacto positivo. A partir disso surgiu, por exemplo, o projeto Tamar. Pioneirismo, diga-se, que exigiu sacrifícios. O escafandro, um dos primeiros equipamentos para mergulho, era um dos instrumentos utilizados nestas expedições.

O museu tem a maior coleção de conchas e moluscos da América Latina. Através de uma técnica de moldagem, o museu também conseguiu reproduzir com muita fidelidade os principais peixes que habitam o mar do Sul, feitos com um molde.

Varredura nas areias do Cassino

Na maior praia do mundo, o esforço para preservar a natureza também é gigante. A ONG Nema reúne biólogos e oceanógrafos interessados na perpetuação da vida marinha no litoral Sul. O trabalho dos pesquisadores não pára, faça chuva ou faça Sol.

Na Praia do Cassino, a faixa de areia que contorna o mar desenha o trajeto a ser cumprido. Ainda dentro do carro, Kleber Grübel da Silva, diretor do Nema, faz suas primeiras anotações.

Ele observa a presença ou a ausência das aves para ver se as migrações estão sendo feitas nos períodos adequados e avalia a diversidade de aves na costa da praia.

Mas foi outro tipo de animal que chamou a atenção do pesquisador: uma tartaruga, espécie careta-careta, sem vida. Segundo ele, um dos motivos da mortandade desses animais, assim como a de aves e peixes, é a poluição que o mar devolve para a areia.

À frente, mais um animal morto. Desta vez um lobo-marinho-do-sul ainda filhote, que provavelmente não conseguiu se adaptar à vida longe da mãe e acabou morrendo por falta de alimentação. Está dentro das estatísticas de mortalidade natural desses mamíferos.

Cada detalhe foi anotado numa planilha. O Nema faz esse trabalho há vinte anos e ajuda a detectar as principais ameaças aos animais marinhos. Kleber da Silva diz que as informações servirão para analisar os impactos antrópicos (relativo ou pertencente às ações do homem) e estabelecer estratégias de conservação para essas espécies.

Quando o trabalho já estava praticamente finalizado, uma surpresa: mais uma tartaruga na areia, desta vez com vida. Era uma tartaruga-verde, espécie ameaçada de extinção. O animal não tem uma das nadadeiras, o que indica que ele pode ter ficado preso em uma rede de pesca e cortado a nadadeira ao se debater. Os pesquisadores fazem a medição, marcam a localização exata em que o animal foi encontrado e preparam o resgate. A tartaruga é levada ao Centro de Recuperação de Animais Marinhos (Ceram), da Universidade do Rio Grande, para tentar salvar sua vida. Lá, o réptil tem o ferimento limpado. Pedro Luis Bruno Filho, o veterinário, diz que a chance do animal sobreviver é boa.

UTI para todos os bichos

O Centro de Recuperação de Animais Marinhos (Ceram), da Universidade do Rio Grande, até parece uma espécie de UTI só para tartarugas. Em quinze dias, 32 foram internadas no local. As que não resistem, passam por necrópsia. Em 80% dos casos o motivo da morte é a ingestão de lixo.

A estudante de Oceanografia, Melina Martins Ruzzene, explica que as tartarugas confundem alimento com lixo e, por isso, acabam ingerindo plástico, bexiga de aniversário, entre outros tipos de materiais. Como conseqüência, o lixo afeta a flutuabilidade do animal e ele acaba, também, com problemas como a inanição.

No Centro também são socorridos aves, pingüins e lobos-marinhos. Um leão-marinho chegou lá filhote e não conseguiu se adaptar à vida livre. Virou morador permanente. Durante as visitas de estudantes, ele é a atração principal.

Mas durante a visita da equipe do Terra da Gente, houve um acontecimento importante: a soltura de uma tartaruga. Ela foi colocada na caminhonete da universidade, que partiu rumo à Praia do Cassino. Em geral os pesquisadores escolhem um local isolado para a soltura dos bichos recuperados. A tartaruga foi atingida pela hélice de um barco, teve fraturas no casco e ficou dois meses em recuperação. Agora era hora de voltar para casa.

As tartarugas-verdes passaram por um processo para retirar o lixo do organismo e também tiveram mais uma chance. Foram soltas no mar. A pardela, uma ave migratória, não perdeu tempo. Recuperada, retomou o seu caminho. Já o lobo-marinho pareceu não querer deixar os pesquisadores para trás após sair da caixa. Mas quando sente o prazer da liberdade, se esbalda. Entendeu que seu destino era longe da praia.

Refúgio silvestre

O Sol ainda não tinha nascido e a equipe já estava de pé. Saímos da cidade de Rio Grande pela balsa e, quando o dia clareou, já tínhamos desembarcado em São José do Norte. De lá a produção partiu mais para o Norte. São 420 quilômetros para atravessar o Rio Grande do Sul.

O destino é Torres, última cidade antes da divisa com Santa Catarina, ponto turístico de belezas naturais de encher os olhos. Mas um pouco diferente do litoral avistado antes. As praias de Torres são as únicas do Rio Grande do Sul que têm acidentes geográficos. São falésias. O grupo encontrou enormes paredões de pedra formados há mais de 600 milhões de anos com o derramamento de lava vulcânica. A sensação era de estar mais perto do céu. E as aves mostraram isso!

Foi possível ver um gavião-quiriquiri, a menor ave de rapina do Brasil, que aproveitou o vento constante vindo do mar e simplesmente “estacionou” no ar. Asas e cauda vibravam para manter o equilíbrio, mas a cabeça não saiu do eixo. Um show de habilidade! Procurou insetos e pequenos animais. O ataque foi rápido. As paredes de pedra das falésias também servem de abrigo para as andorinhas. Logo cedo elas saem em revoada para buscar alimento. Um espetáculo nos ares.

As águas do litoral gaúcho favorecem a vida dentro e fora do mar. Segundo Maurício Tavares, biólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a razão é porque ocorre o encontro de duas correntes marinhas. Uma do Brasil, que vem do Norte e tem águas quentes e pobres em nutrientes. E a outra, que vem do Sul do continente, mais especificamente das Malvinas. Suas águas são o oposto: frias e ricas em nutrientes.

As duas correntes se encontram mais ou menos na latitude do Rio Grande do Sul e convergem para o oceano, formando uma região chamada de convergência subtropical. Ela gera uma área muito rica em alimentos, atraindo mamíferos, aves e tartarugas marinhas. Por esse motivo o litoral gaúcho possui uma diversidade tão grande de espécies. Algumas delas viajam milhares de quilômetros para estar ali. É o caso das aves que se reproduzem no Hemisfério Norte e procuram o litoral Sul brasileiro apenas no Inverno.

No ângulo das aves

A equipe do Terra da Gente teve a oportunidade de conhecer esse paraíso pelo mesmo ângulo das aves, voando de paramotor, uma espécie de parapente com hélice. Uma câmera foi instalada no capacete do repórter e outra foi na mão. Era chegada a hora de decolar.

O chão sob os pés desapareceu. Abriu-se, então, uma janela voltada para o mar. Em alguns pontos, a areia da praia deu lugar às rochas, também de origem vulcânica. De cima foi possível ver os três principais morros: do Farol, do Meio e da Guarita. Os navegadores antigos os chamavam de torres, por isso o nome da cidade. Ao olhar para o Sul, a praia some da vista, mas todos voltam ao morro do Farol para o pouso.

Do morro dava para ver, de longe, o próximo destino: a Ilha dos Lobos, unidade de conservação e refúgio da vida silvestre. Protegida, em alto-mar, ela fica a dois quilômetros da costa. A equipe desceu até a margem do Rio Mampituba, que faz a divisa com Santa Catarina. Na companhia do oceanógrafo Rodrigo Menezes, do Nema, embarcou em uma lancha.

O rio que contorna a cidade tem águas calmas, é destino de pescadores. Mas à medida que a água doce encontrava o oceano, o caminho ia ficando turbulento. Mesmo com o balanço do mar era possível avistar o destino. O objetivo principal era encontrar os leões-marinhos, que ocupam a ilha. A abundância desses animais costuma aumentar no Inverno.

Mas foi preciso sorte. Até o vento tinha que estar a favor da equipe. Contra o vento, os leões-marinhos sentem o cheiro e a primeira reação deles, normalmente, é ir para a água. Se aproximar da ilha também não foi fácil. A geografia no fundo do mar faz com que muitas ondas se formem no local. Há quem diga que são as maiores do Brasil. Mas, no dia, a natureza conspirou a favor. Foi possível chegar bem perto e enxergar, numa pedra, sete leões-marinhos. Mas ao todo eram mais ou menos 26 animais. Eles ficaram imóveis, quase soberanos, enquanto as ondas invadiam a ilha sem dó.

Segundo o oceanógrafo, os animais foram parar lá porque no local há bastante peixe. Ou seja, a oferta de alimento para eles é muito grande.

Eles saem das colônias reprodutivas que têm no Uruguai e na Argentina e vêm para o Rio Grande do Sul em busca, também, de um pouco mais de calor.

Mas afinal, por que o nome é Ilha dos Lobos se há mais leões-marinhos? Rodrigo responde que, a princípio, deveria ser Ilha dos Leões, mas que a população, em geral, não distingue o leão do lobo-marinho. Para a maioria é tudo lobo. Por isso o nome.

A Ilha dos Lobos é a menor reserva ecológica do Brasil. Tem o tamanho pouco maior que o de um campo de futebol. Não é possível desembarcar lá. Apenas pesquisadores autorizados podem fazê-lo. E, mesmo assim, é preciso descer na água ir nadando até o local, o que é bastante perigoso. Mas só de contemplar os leões do barco já foi uma grande conquista para a equipe do Terra da Gente. Até porque o litoral do Rio Grande do Sul é o único lugar do Brasil onde eles aparecem. Preservar a Ilha e a ponta do molhe, em Rio Grande, é o mesmo deixar as portas sempre abertas para o visitante ilustre.



*O programa Terra da Gente é exibido pelas seguintes emissoras: EPTV (Campinas, Ribeirão Preto, São Carlos e Varginha-MG); TV TEM (São José do Rio Preto, SP; Sorocaba, SP; Bauru, SP e Itapetininga, SP); TV Fronteira (Presidente Prudente); TV Diário (Mogi das Cruzes, SP); TV Centro América (Cuiabá, MT); TV Centro América Sul (Rondonópolis, MT); TV Centro América Norte (Sinop, MT); TV Terra (Tangará da Serra, MT); TV Morena (Campo Grande, MS); TV Sul América (Ponta Porã, MS); TV Cidade Branca (Corumbá, MS); TV Grande Rio (Petrolina, PE); TV Asa Branca (Caruaru, PE) e TV Tapajós (Santarém, PA). Sobre dias e horários, consultar a programação da emissora local.

O Terra da Gente é exibido também para todo o Brasil, aos domingos, às 7:00h, via antena parabólica (o canal Superstation da Globo) e para 116 países dos 5 continentes pelo Canal Internacional da Globo.

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