domingo, 15 de fevereiro de 2009

A disputa para ser zelador do paraíso

Publicado por Kassu
Água Boa News


As estratégias e trapalhadas dos brasileiros que se candidataram à vaga de zelador de uma ilha paradisíaca do Pacífico
Rafael Pereira / Època


O INDIANA JONES DO RIO

Paulo Spindola escala um morro em São Gonçalo. O espírito aventureiro o qualificaria para a vaga de zelador


“Minha vida. Meu momento. Meu sonho”, diz Paulo Spindola, de São Gonçalo, Rio de Janeiro, no vídeo que gravou para participar da escolha de zelador das Ilhas Hamilton – o “melhor emprego do mundo”, de acordo com o governo australiano. Paulo é um dos 10 mil candidatos do mundo inteiro que sonham com a vaga. Quem for selecionado receberá o equivalente a R$ 43 mil por mês, quase cem salários mínimos no Brasil, além de casa, comida e carro. Os candidatos precisam se inscrever com um vídeo de até um minuto, contando, em inglês, por que merecem a vaga. O escolhido ficará seis meses como responsável pela divulgação da ilha e terá de postar diariamente num blog sua experiência à frente da administração, usando texto, fotos e vídeos. Algumas das responsabilidades do cargo incluem mergulhar com tubarões e auxiliar num programa de reprodução de tartarugas marinhas.

A vaga foi criada para promover o turismo nas ilhas da Grande Barreira de Corais, que anda prejudicado pela crise financeira. A campanha foi lançada em 10 de janeiro. Houve tantos interessados que o site que recebe as inscrições saiu do ar por excesso de tráfego nos primeiros dias. Os brasileiros, que exibem tanta criatividade nos vídeos enviados à seleção do programa Big brother, da TV Globo, são mais de 5% dos inscritos. Há candidatos de todas as partes do país, com os mais variados perfis. Há biólogos marinhos e profissionais de mergulho, desempregados e gente sem o segundo grau completo. O domínio do inglês, obrigatório para concorrer à vaga, vai do sofrível ao fluente. Além do idioma, a descrição das qualificações exigidas pelo empregador é pouco específica. É preciso ter “espírito aventureiro” e ser “bom nadador”. Não é exigido diploma universitário.

Pelo que se vê nos vídeos, os brasileiros parecem querer ganhar pelo humor. O webdesigner Paulo Spindola, conhecido como o Indiana Jones de São Gonçalo, gravou um vídeo em que valoriza seu “espírito aventureiro”, uma exigência do emprego. Diante da câmera, ele escala montanhas, dá saltos mortais de um píer na praia, malha pesado na academia, entra na mata com uma mochila de camping e dança no meio de guaxinins, ao som de músicas de filmes de ação. “Gosto de coisas radicais”, diz Paulo. “Faço escalada, trilha, acampamento... Quero aprender a voar de parapente e fazer bungee-jump de uma ponte bem alta”. Seu maior problema é o inglês precário.

Roderley Gasparello, professor de ciências e matemática em escolas públicas de Formosa do Oeste, Paraná, viu na TV uma reportagem sobre a proposta de emprego na Austrália e ficou empolgado. “Não achei que fosse sério. Poderia ter caprichado mais no vídeo”. Sua mensagem começa como uma cartilha de cursinho de idiomas: Hello! How are you? I’m fine, thanks. Mesmo sem acreditar muito em vencer, o professor já está feliz com sua performance. Seu vídeo tornou-se o segundo mais visto entre os de brasileiros candidatos à vaga.

As tentativas de falar inglês garantem algumas das cenas mais divertidas dos vídeos no YouTube. Num deles, o carioca Luiz Paulo tira os óculos escuros, pula de uma lancha, dá uma nadadinha e diz: I want work from you, algo como “Eu quero trabalhar de vocês”. Da lancha, uma voz feminina o corrige: For you! (Para vocês!). Outro candidato, Thales, depois de dizer que é biólogo, mergulhador profissional e fotógrafo, afirma, em inglês: “Se quiserem melhorar o terrorism na ilha, será um prazer fazê-lo”. Provavelmente, queria dizer tourism.

Não é só a língua que produz cenas de humor involuntário. O candidato Daniel, de São Paulo, que se intitula o Homem-Concha, fez um vídeo de animação com montagens fotográficas. A concha humana, com seu rosto toscamente colado, aparece comendo krill (um crustáceo semelhante ao camarão), no degrau mais alto de um pódio olímpico. No final, faz uma espécie de dança do siri. O gaúcho Ricardo misturou referências de filmes como Náufrago e A bruxa de Blair. Simula seu primeiro vídeo já como zelador da ilha australiana, elogiando a casa e as belezas naturais. Aparece com uma camisa branca amarrada na cabeça, fingindo preocupação porque ninguém responde a suas mensagens e não há nenhum ser humano na ilha. No fim, aparece com barba grande, incapaz de falar, dando apenas gritos e grunhidos. Tudo isso em um minuto.

Dos cerca de 500 vídeos enviados por brasileiros, o mais elogiado é da carioca Mariana Alves, de 27 anos. Ela mora na Austrália há sete, onde faz vídeos de casamento, de batizado e afins. Aproveitou uma passagem pelo Rio de Janeiro, filmou a primeira cena na Praia de Copacabana e emendou imagens das belezas da Grande Barreira de Corais australiana. A cena final mostra Mariana entregando seu currículo e dizendo “Acho que vocês estavam procurando por mim”.

As inscrições para o emprego podem ser feitas até 22 de fevereiro. No dia 2 de março, serão escolhidos 50 inscritos, que farão entrevistas on-line com os contratantes e receberão votos dos internautas. O vencedor começará a trabalhar em julho.

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