domingo, 15 de fevereiro de 2009

A vida do travesti D.B.S.C., 17 anos, prostituído

15/02/2009 às 07h39m
Publicado por kassu
AGUA BOA NEWS


Maria, mãe do menor encontrado com Ralf, que mora em Poconé PnBOnline


Uma vida envolta em violência, preconceito e desestrutura familiar. Essa é a história do travesti adolescente D.B.S.C, de 17 anos, que segundo boletim de ocorrência de Polícia Militar, foi vítima de exploração sexual por parte do vereador Ralf Leite (PRTB), que teria pago R$ 30 para manter relacionamento sexual com o menor.

Em entrevista exclusiva ao PnBOnline, a mãe do menor, Maria Santa de Liz Silva, 35 anos, que atualmente mora em Poconé, relatou as dificuldades de criar os dois casais de filhos, sendo o pai das crianças dependente de álcool.

Maria contou que chegou a morar e trabalhar, entre idas e vindas, por cinco anos em um prostíbulo em Poconé, onde nasceu. "A criação das crianças foi difícil. O pai deles bebia e batia em mim. Eu que trabalhava para cuidar dos quatro e ainda sustentava o pai deles. Depois que já estava separada, conheci a dona do cabaré lá em Cuiabá e fiquei indo e vindo. Foi o desespero. Eu pagava uma pessoa para cuidar das crianças", afirmou.

Sobre a orientação sexual do filho, dona Maria disse que "sabia já desde pequenininho". No entanto, o pai, que hoje mora em Cuiabá, nunca aceitou a situação. "Tudo sou eu que agüento. Eu converso muito com ele. Digo que lá fora não é essas coisas que a gente pensa".

O adolescente, que prefere ser chamado por um nome feminino com o qual se apresenta, reafirmou a história contada em seu depoimento ao promotor de Justiça de Poconé, Rinaldo Ribeiro.

Ao ser questionado o que o levou a fazer programas no Posto Zero Quilômetro, em Várzea Grande, por quase um ano, o adolescente disse que foi o fato de não querer pedir nada aos outros. Atualmente ele é o único da família que leva dinheiro para casa. A mãe está desempregada e o padrasto está preso há quatro meses. Ainda assim, não contava de onde vinha o dinheiro. "Minha mãe não sabia, eu dizia que ia para a casa de uma amiga minha", afirmou.

O menor relatou também que sempre foi alvo de preconceitos e chacotas na comunidade onde mora. Ainda na escola, onde cursou até a quinta série do Ensino Fundamental, era piada para os colegas. Há cerca de um mês, um rapaz de seu próprio bairro chegou a agredi-lo no meio da rua. "Eu não dou moral para ele. Ele é muito despeitado, mexia comigo e me xingava", contou D.B.S.C. A mãe disse que ficou sabendo ainda na sexta-feira (6), por uma vizinha, que seu filho estava envolvido em um flagrante com o vereador Ralf Leite. Na mesma hora, comprou um cartão telefônico e ligou para o filho, que confirmou que estava no Centro Integrado de Segurança e Cidadania (Cisc) do Parque do Lago, para onde foi levado com o vereador, que se encontrava preso.

Sobre a postura do vereador, dona Maria não emite juízo de valor. Mas diz que não achou correto ele ter se envolvido com um adolescente, tendo o parlamentar conhecimento da lei. "No meu modo de pensar, eu não sei discriminar ninguém. Ele não fez isso dentro do trabalho dele. As pessoas escolhem com quem ele quer ficar. É um erro dele, sendo um vereador, ele sabendo que o negócio que é de dentro da lei, não era para envolver nesse tipo de coisa. A pessoa tem que procurar saber. Pelo rosto já dá pra ver que era menor".

Hoje, os outros dois filhos menores de dona Maria, um rapaz de 14 anos e uma garota de 12, moram em Cuiabá com a avó paterna. A filha mais velha, de 18 anos, é casada, mora em Poconé e está grávida de seis meses.

A prisão do marido de dona Maria só veio piorar ainda mais a situação da família. Desempregada e após os últimos acontecimentos, ela se mudou nesta semana da casa de quatro peças na qual morava, para uma outra morada com apenas dois cômodos. O motivo: o aluguel da antiga casa estava atrasado há quatro meses.

Com pouco espaço, na atual residência, os móveis e eletrodomésticos estão empilhados. Água encanada não há e, no meio da bagunça, dona Maria divide a cama de casal com seu filho D. B.S.C. É claro, quando ele fica em casa. "Ele ainda fala de voltar para Cuiabá. Eu fico doente só de desespero. Já imaginou se acontece alguma coisa com ele?", indagou.

Dona Maria também revelou que somente com a ajuda financeira de seu filho conseguiu pagar o novo aluguel. No entanto, a mãe declarou firmemente que não quer ver mais seu filho nessas condições.

Ao ser questionado sobre o seu futuro, o adolescente não aparentou ter grandes expectativas. Somente após alguns segundos de silêncio, a resposta veio incerta e relutante: "Mas eu vou voltar a estudar", concluiu.

Promotor critica ausência do Estado

Para o promotor de Justiça de Poconé, Rinaldo Ribeiro, falta por parte da Secretaria de Estado de Educação (Seduc) ações nas escolas, no sentido de trabalhar a questão da Educação Sexual de uma forma mais eficaz, tocando nos assuntos de discriminação a homossexuais e exploração sexual de menores de idade.

"Eu acho que precisaria ter ações em alguns outros campos para evitar ter discriminação. Esse adolescente é discriminado na sua comunidade. Há um relato de uma pessoa que o persegue já tem alguns meses e o agride quando o vê na rua. Sabe-se lá porque razão esse homem faz isso com ele", relatou o promotor.

O promotor desenvolve ações sociais com adolescentes homossexuais, e aponta algumas medidas necessárias para melhorar a vida desses jovens. "Uma das propostas que tenho é que a Secretaria de Estado de Educação tenha uma coordenação que trate essa questão da discriminação quanto aos homossexuais. Se você ouvisse o que esse adolescente fala com relação à escola, que já foi xingado, humilhado e agredido na escola e ninguém fez nada! Quando eu digo ninguém é o Ministério Público, o Conselho Tutelar, são os professores. Ele foi marginalizado e ao meu ver foi levado à prostituição", disse o promotor, sem esconder sua indignação.

Para o promotor, a sociedade espera ação por parte do governo do Estado, para combater o problema da exploração sexual infantil e discriminação. "Da Câmara de Vereadores de Cuiabá, a sociedade espera uma apuração isenta e um julgamento isento. Do MP espera agilidade e depois dos inquéritos da Polícia Civil, os encaminhamentos que o promotor de Várzea Grande achar legal. No nosso caso, acho que o a sociedade espera, é de recuperar esse adolescente, sobretudo, na questão da educação", afirmou.

Sandra Costa PnBonline

Seja o primeiro a comentar

Copyright©| Desde 2008 | AGUA BOA NEWS COMUNICAÇÃO LTDA | Template customized by Michel Franck

Início