sexta-feira, 12 de junho de 2009

SEMEAR É PRECISO,VIVER NÃO É PRECISO

*Por Clayton Arantes
Edição de Kassu - 12/06/2009 - 11h08



Uma homenagem àqueles que ainda seguem plantando, apesar de tudo.

Ouvem-se o estrondos dos primeiros trovões, anunciando a chegada das chuvas. É o chamado do Criador aos seres e elementos que se conjugarão para darem continuidade ao ciclo natural de renascimento, multiplicação, morte e evolução. Chove sobre a terra sedenta. A natureza se renova e canta sua ode à vida.

A terra molhada esta no cio. É preciso fecundá-la.
Como os animais que se buscam para cumprirem com o instinto de conservação das espécies, atraídos pelo odor exalado das glândulas sexuais de seus parceiros, assim também ocorre com os homens a quem o criador confiou a nobre missão de serem agricultores. Semeadores de sementes, de pão, vida, riquezas, progresso e esperanças.

Ao sentirmos mais uma vez, o cheiro doce da terra molhada, divino feromônio da natureza a atrair os que escolheram plantar, nos rendemos novamente e como insanos, nos entregamos a esta tarefa milenar que tem garantido a continuidade da espécie humana na face do planeta, desde tempos imemoriais.

Decididamente, semear a terra não é apenas uma profissão, é antes de tudo uma paixão, e na atualidade, talvez até mesmo uma doença, penso eu. Algo para ser estudado por psiquiatras e psicanalistas, não por economistas, se bem que eu ache que nem Freud explicaria isto.

Uma paixão como a do adolescente de antigamente, excitado e inseguro diante da sensualidade libidinosa da velha prostituta experiente. Paixão como a do homem maduro, seduzido pelas promessas da amante bela e caprichosa, cheia de exigências caras e riscos perigosos.

Como toda paixão é desprovida de razão, com sentimentos contraditórios de amor e ódio, assim também é nossa relação com a terra. Tumultuada, cheia de ternura e violência, carinho e rejeição. Uma paixão incestuosa, do filho para com a sua mãe. Como na tragédia grega, entre Édipo e Jocasta.

Uma vez seduzidos, nos entregamos numa relação intensa, marcada por cuidados e carinhos, encanto e decepção, prazer e dor, alegrias e tristezas. Tudo normal, como em qualquer paixão, onde a lógica não se aplica.

Porém, quando algo dá errado nesta relação imprevisível,com esta amante tão volúvel e as juras de amor e de entrega não produzem os resultados esperados e os frutos não vingam, como não vingam os filhos abortados, nos sentimos desiludidos, traídos, corneados.

E para amenizar a dor das perdas, para curar o ressentimento da traição e diminuir a sensação de fracasso, nos reunimos em confrarias, junto com outros cornos e choramingamos e bebemos as nossas mágoas e dívidas,no mate quente do chimarrão ou na espuma fria de uma cervejada, enquanto maldizemos a sorte e excomungamos os governantes,ouvindo corno-music e vanerão, embora eu prefira Raulzito e Pink Floyd.

Hoje, como à três anos atrás e sucessivamente, este é o sentimento e o estado de espírito da grande maioria dos homens deste região, que escolheram, por paixão e insanidade,semear a terra e colher os seus frutos que de uma forma ou de outra, se transformam em pão e vida para tantos outros, mundo a fora, embora recebamos por isto,quase sempre, discriminação e preconceito.

Porém, mesmo assim e apesar de tudo, bastará ouvir novamente o reboar dos trovões e sentir o cheiro doce da terra molhada que lá vamos nós de novo, excitados, ébrios de esperanças e cegos de paixão, nos atirarmos outra vez nos braços desta amante fatal. E a medida que a vamos emprenhando,só temos uma certeza, a de que ela, talvez nos dê seus frutos mas é certo que nos cobrará pela ousadia. E nem adianta rezarmos para Deméter ou Ceres.

Como se fosse uma versão feminina do deus grego-romano do Tempo, o Titã Cronos, a mãe terra, Gaia, também vai nos devorando à medida que a ela nos entregamos. Devorando e regurgitando seus próprios filhos, nós, estes loucos apaixonados desprovidos de razão chamados de Agricultores. Até o dia em que nossa matéria putrefada se converta em esterco fertilizante no seio acolhedor desta amante fatídica e num amplexo final, passemos a ser pó, integrados pela eternidade à terra de onde viemos.

Afinal, para encerrar, eu, que sou um destes, semeador de sementes e de idéias, metido a filosofar com as dores da vida, (a minha e a alheia) ouso adaptar Fernando Pessoa, que se inspirou na frase célebre de Cneu Pompeo Magno, o general romano da antiguidade e reafirmo mais uma vez:
"Semear é preciso, viver não é preciso".

*Clayton Arantes
Acadêmico de Jornalismo

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