sábado, 4 de julho de 2009

Croácia - Enquanto o euro não vem

Água Boa MT 04/07/2009 - às 11h03

Amigos internautas, bom dia !!!

Olá pessoal se você depois da 18ª Expovale pretende passar umas férias no exterior vai uma dica especial das repórteres Cris Capuano e Ana Ce que estão na Croácia e enviou gentilmente para ser publicado em AGUA BOA NEWS o roteiro mais barato da Europa.
Pedimos aos nossos internautas que residem no exterior que enviem reportagens que publicaremos com muito prazer. (Por Kassu)

Por: Cris Capuano | Fotos: Ana Ce
Edição e publicação de
Kassu


VÁ ENQUANTO É TEMPO Hvar encarece rápido: no clube Bonj Les Bains, passar o dia custa 70 euros

CRIS CAPUANO não deixa kuna sobre kuna e descobre as últimas barganhas da Croácia, a riviera mais barata da Europa

"Você fala russo?", pergunta o motorista do trem, em inglês parco mas com boa vontade. Eu acabava de desembarcar em Zagreb, capital da Croácia, e não estava entendendo nada. Nenhuma palavra. Ou nijedan rijec, como se diz na língua oficial, que é da família do russo e do polaco ou, na mais familiar das hipóteses, parecida com o alemão. Foi quando bati os olhos no tênis All Star de Sabina. A estudante de 20 anos me entende e ri quando eu pergunto onde pagar pelo transporte. "A passagem custa 8 kunas", diz, retirando o fone de ouvido de seu iPod. Converti. "Um euro?" Ela confirma: "É tão barata que ninguém paga".

Sabina é um dos 4,5 milhões de habitantes do país quase tão novo quanto ela. A Croácia (Hravtska, em croata) só existe como nação desde 1991, quando se tornou independente da Iugoslávia. O país viveu a guerra até 1995, e o turismo desabou: se o país recebia 7 milhões de estrangeiros por ano na década de 1980, nesse período o número caiu para 1 milhão. Passada a insegurança com todos os confl itos, que se estenderam na região até 2001, os europeus começaram a sacar que a economia enfraquecida poderia realizar seus sonhos de verão. E a Croácia, com suas 1 200 ilhas banhadas pelo azul absurdo do Adriático, perfeitas para velejar, transformou-se na nova riviera deles.

Eu desço do trem e agora estou no centro nervoso da cidade. Na praça que liga a parte alta, Gornji Grad, à baixa, Dornji Grad, a estátua de bronze do general Josip Jelacica chama menos atenção que o imenso outdoor de óculos escuros. A estátua ficava de costas para a cidade, apontando em direção à Hungria, até 1945, quando foi retirada pelo marechal Tito, então presidente da Iugoslávia. Jelacica ficou desmontado por 46 anos. Em 1991, o herói da guerra contra o país vizinho voltou à cena, mas na direção oposta. Ele agora olha para a frente, como faz todo o país.

Para a frente está o processo de adesão da Croácia à União Europeia. O país deverá adotar o euro em 2012, depois que resolver o conflito com uma área fronteiriça que disputa com a Eslovênia. Mais uma briga feia. Traduzindo, você tem mais três anos para fazer como eu: pagar o equivalente a 1 euro por um expresso, 2 por uma cerveja e 3 por uma linda viagem de ferry-boat. E, ainda, comer bem e barato: no restaurante Boban, do jogador de futebol Zvonimir Boban, o Ronaldinho das camisas quadriculadas de vermelho e branco, gastei 52 kunas (7,50 euros) por um espaguete com frutos do mar. Dava para dois.

Nenhuma pechincha, no entanto, mudou tanto o turismo na Croácia quanto as passagens low-cost do resto da Europa. No último verão, 11 milhões de turistas desembarcaram nos oito aeroportos do país - e a maioria chegou de Londres, Roma ou Berlim com bilhetes promocionais de 15 ou 20 euros. Os voos baratos também mudaram os hábitos dos moradores, com implicações na política, na cultura e, claro, nas compras. Garotas como Sabina, que antes enfrentavam as fronteiras para comprar roupas em shoppings de Trieste, estão achando mais rápido e mais barato voar para Londres. Na Ilica, a principal rua comercial do centro de Zagreb, vejo as mudanças dessa ex-nação socialista. Ali fica um dos poucos McDonald's. Para o ano que vem, a Croácia espera ansiosa a chegada da primeira filial da rede de móveis Ikea.

A capital, ainda que culturalmente interessante, está no interior e só agora desperta para o turismo. Quem pensa em Croácia vê o litoral, dividido entre a Ístria (o norte) e a Dalmácia (o sul). "O Mediterrâneo como costumava ser", vende, com algum sentido, o slogan dos escritórios de turismo. Uma riviera mais simples, mais lenta e menos consumista que as rivieras italiana ou francesa. Para uma semana de viagem, o melhor é escolher entre o norte e o sul. É o que eu faço. Em um voo da Croatian Airlines a 40 euros, rumo para a Dalmácia. Como num túnel do tempo, desembarco em 700, a época da fundação de Dubrovnik.

MARCAS DO PASSADO
Na ponta mais ao sul do país, a cidade medieval murada e banhada pelo mar é a que recebe mais gente. Mas a infraestrutura hoteleira dentro da muralha ainda impede (um pouco) a invasão dos turistas de massa do Mediterrâneo. O governo constrói autoestradas e o progresso tecnológico põe fim a séculos de isolamento. Na entrada principal, a Pile Gate, sou recepcionada por um luminoso da T-Mobile, uma das empresas emergentes do mercado de telefonia. E por Renata Zjadic, a dona do meu sobe, ou quarto de aluguel - o tipo de hospedagem mais comum por aqui.

Os moradores agradecem por estar conectados, mas ainda não perderam a identidade dos lugares remotos. Renata não exigiu o depósito para confirmar a reserva e, no primeiro dia, já entregou a chave de sua casa de quase 300 anos. O quarto correspondia às fotos do site: a cama confortável, o móvel antigo esculpido em madeira e o banheiro novinho estavam ali. A localização era perfeita. Da janela do quarto, a vista era para a muralha de 25 metros de altura. Nas paredes, fotos da infância de Renata e bichos de pelúcia pendurados deixavam a decoração...curiosa. Sobre a cama, um quadro cristão.

Os preços na Croácia, em geral, dobraram nos últimos três anos. Hospedar-se em casas como a de Renata ainda é uma pechincha: pelo meu quartinho de casal com ar-condicionado, frigobar e chaleira elétrica eu desembolsei 20 euros por pessoa, o mesmo que pagaria em um albergue qualquer da velha Europa. Não tem preço: à noite, os turistas vão embora e os becos, desertos, parecem guardar há séculos os segredos de romances proibidos. Notas de jazz ecoam pelas ruelas sem que eu perceba exatamente de onde vêm. Os gatos de rua, bem cuidados pelos locais, passeiam soturnos. A sensação é a de que os portões foram fechados, como antes. A cidade é toda sua.

Dentro da muralha, ouço as histórias da antiga e sofisticada República de Ragusa (por 30 kunas, você aluga um audioguia), que, em 1391, tinha até farmácia. Entre 1991 e 1992, todo o passado glorioso correu o risco de explodir. Foi quando o mundo voltou os olhos para Dubrovnik: durante seis meses, a cidade tombada desde 1979 pela Unesco como Patrimônio da Humanidade foi bombardeada pelas forças sérvias. Duas em cada três construções sofreram alguma avaria e dez delas vieram abaixo. Os sofrimentos da guerra ainda são recentes para os moradores. Renata, minha anfitriã, é das poucas que falam abertamente dos dias em que vizinhos foram esfaqueados e ela e seu filho, então com 6 meses de idade, viviam sob o terror de sirenes, sem água quente nem luz. "Era inverno. Ainda trago a sensação das roupas e dos cabelos endurecidos pelo sal do mar gelado", diz.

O empurra-empurra da Stradum, a rua principal, é constante durante o dia. E o antídoto pode ser a Ilha Mljet, o mais verde e ecológico destino dos arredores, que guarda um mosteiro beneditino do século 12. Mais perto ainda, a 15 minutos de táxi-boat, está a Ilha Lokrum. Há trilhas, pavões, mergulho com vista para a cidade murada e um ponto de apoio, a lanchonete Lacroma, onde a ótima cerveja eslovena Lasko custa 20 kunas e o músico Frano Majstorovic, uma figura parecida com Jack Nicholson no filme Easy Rider, toca Tom Jobim, seu "compositor preferido - depois de Gershwin". Às 5 da tarde, todos vão embora. E os que sabem das coisas veem o pôr do sol no Buza, um bar com acesso por uma passagem secreta na muralha, de frente para o mar.

FESTA CROATA
Minha próxima parada era a Ilha de Korcula, que os nativos juram ser berço de Marco Polo, o maior viajante de todos os tempos. Ainda que sua origem mais provável seja Veneza, conhecer essa "mini-Dubrovnik" valeu cada centavo da minha passagem de ônibus de 30 kunas (que incluía uma cênica travessia de ferry-boat). A cidade medieval, bem menos turística, está para ser descoberta por casais apaixonados: o primeiro hotel cinco-estrelas acaba de ser inaugurado. Eu fui me esconder em Lumbarda, um vilarejo na ponta leste da ilha forrada de campos de oliveiras. Ali estão praias de areia (coisa rara em todo o país). E o restaurante Zure, tocado por uma família que tem barco de pesca e fabrica até o azeite de oliva usado no preparo de polvos e lagostas. O país produz, em pequena escala, mais de 700 rótulos de vinhos. E as parreiras da família Zure geram um dos mais especiais deles, o branco Grk de rótulo Bartul. Outra barganha: a garrafa no restaurante custa 80 kunas (pouco mais de 10 euros).

Os ferries da companhia Jadrolinija são o melhor meio de transporte entre as ilhas. Foi numa embarcação vinda de Bari, na Itália, que sigo para a Ilha de Hvar. Em Stari Grad, um grupo de nova-iorquinos e a mochileira alemã Michaela Paech, que mora no Afeganistão, racham comigo o táxi até a cidade de Hvar propriamente dita. Ainda assim, minha carteira fica 20 euros mais fina (os táxis cobram caro em qualquer canto). Se eu viesse de Split, a segunda maior cidade do país, a travessia seria mais fácil. Do centro de uma das principais áreas de dominação romana na região, ao lado da antiga residência de verão do imperador Diocleciano (hoje um centro comercial), há barcos que seguem direto para o centro de Hvar. De lá também é possível fazer passeios de um dia para a Ilha Brac, com as praias mais famosas da Dalmácia.

Hvar está na moda. E isso faz com que tudo pareça um catálogo de verão fashion. Garotões bronzeados ancoram seus iates e são observados por loiras de chapéu panamá e Havaianas espalhadas em sofás de ratã. Por 20 kunas, eu também posso tomar uma cerveja no bar do Riva, o mais estiloso hotel da cidade. E, no dia seguinte, todos nós pegamos a Praia de Palmizana, nas sossegadas Ilhas Pakleni, a poucos minutos de táxi-boat. No konoba (nome usado para restaurantes mais caseiros e familiares) Menego, o garçom dá a pista de que comer por aqui é um luxo. "Sem pizza, sem Coca, sem sanduíche", diz, orgulhoso, enquanto mostra o cardápio de comidinhas regionais. Ainda que os preços não sejam tão camaradas, os jantares no restaurante italiano Luna e Macondo são bem melhores. E quase sempre terminam com mais uma garrafa de vinho e com o saboroso queijo da Ilha Pag na sobremesa. Passar a noite na boate Carpe Diem custa caro. De graça e ao ar livre, eu curto agora o show de Neno Belan, que canta pop rock em croata junto com a banda Fiumens. No meio do povo encontro Michaela, a mochileira do Afeganistão. Como eu, ela não entendia nada. Mas se divertia à beça com a música que, traduzida, dizia que todos os dias, a partir daquele, seriam dias de sol. É verão, e a Croácia está em seu melhor momento. A boa notícia é que, pelo menos até o euro chegar, você também pode fazer parte da festa.


O NOVO E O VELHO - Cartaz da balada diurna de Hvar


Vista do alto da cidade murada de Dubrovnik


Hvar: rumo à União Europeia


AVANTE! - A Praça Josip Jelacica, em Zagreb


Ruela de pedras

1 Comentário:

Matilda disse...

Zagrev parece uma cidade muito fashion, mas o agua cristalina é verdadeiramente uma paisagem espetacular!
Para as pessoas que tem euros, o melhor é alugar apartamentos em Buenos Aires porque ali na Argentina o cambio é muito conveniente!

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