segunda-feira, 20 de julho de 2009

Grávida aos 53, com sêmen doado, é exemplo de obstinação

Por Ruth de Aquino
Publicado por Kassu - 20/07/2009 às 07h36



A obstinação de algumas mulheres é admirável. A paulistana Lílian Braga (foto), 53 anos, é uma mulher que não desiste nunca. Ela sempre quis ser mãe, não conseguiu com o primeiro marido, não conseguiu com o segundo – porque eles não queriam. Cada um por suas razões. O segundo ex é um chef famoso e festejado, Danio Braga, italiano de 55 anos, há 30 no Brasil. O casal criou em 1992 a Locanda della Mimosa, hotel-restaurante de charme em Itaipava, num terreno de 10 mil metros quadrados, na serra do Rio de Janeiro, com adega, horta e cozinha requintada. Veio a separação por desgaste natural da relação, há seis anos.

Lílian continuava querendo ser mãe. E pediu a Danio seu sêmen. Se era para fazer inseminação, que fosse com o grande amor de sua vida. Danio disse não – ele nunca foi pai. Lílian decidiu ir a um banco de esperma, escolheu o pai desconhecido pela ficha, e hoje, grávida de seis meses, comemora sua produção independente com alegria e sem ressentimento. É um caso incomum, uma gravidez de risco, mas Lílian tem saúde e pensamento positivo.

Lembrei de conversar com ela quando Martha escreveu um post sobre As sem-bebê.

Lílian, por que esse bebê demorou tanto?
Tive um primeiro marido quando tinha 20 anos. E ele já tinha dois filhos do primeiro casamento. Eu adorava a vida com ele e achava que ainda tinha muito tempo. Nos separamos quando eu estava com 28 anos.

E o segundo, Danio Braga?
O Danio também não queria ter filhos e nós embarcamos num projeto lindo, nosso filho era a Locanda della Mimosa, tínhamos cinco cachorros. Era um projeto de amor, dedicação integral. Abri mão da maternidade novamente, e acabamos nos separando por outros motivos, como tantos casais. Achava que a gente ia voltar, mas sabia que filhos não cabiam na relação, eram as regras do Danio.

Quando você decidiu fazer inseminação, procurou seu ex?
Nós continuamos amigos – e sócios, porque ainda não vendemos a Locanda. Para mim, era o mais natural. Pedi algumas vezes que ele fosse o pai, mas a resposta foi não. Não conheço os motivos dele. Fiquei triste mas não se pode obrigar ninguém a querer ser pai ou mãe. Aí, no ano passado, conheci um médico fabuloso, Marcio Coslovsky, especialista em reprodução. Perguntei a ele se daria para engravidar na minha idade, já que não entrei na menopausa. Ele disse “sim, mas não garanto”.

Em que hospital você buscou o sêmen?
No Albert Einstein, em São Paulo. Sei que eles são rigorosos, examinam os antecedentes médicos do doador. Fui lá em novembro e engravidei de primeira, acho que se foi tão fácil é porque era para ser. Tenho consciência de que não é comum. Algumas mulheres tentam de tudo e passam por processos dolorosos. Cada caso é um caso.

Que tipo de “pai” você escolheu?
Era um banco grande de dados. Escolhi um engenheiro de 37 anos, claro, de olhos claros, cabelos castanhos, alto. Queria alguém que não fosse gordo porque os genes a gente herda. O Einstein tem o histórico de doenças da família do doador. Ele se submete a mil exames para ser aprovado e poder doar seu sêmen. Nós sabemos apenas as características – não sabemos quem é.

Você chegou a pensar em pedir a algum amigo?
Não. Imagina se vou sair como aquela da novela, entrevistando pais em potencial. Se a mulher quer saber quem é o pai acaba arrumando um vínculo. Eu não chegaria para um conhecido e perguntaria: quer me arrumar um esperma? Não rola. A gente nunca sabe o futuro, não é? Esse filho é meu. Eu decidi ter. Sabe-se lá se depois o doador resolve pedir o filho, dividir…Se não deu para ser com Danio, meu companheiro por 12 anos, então teria que ser um desconhecido.

Foi com seu óvulo mesmo?
Exatamente. Meu óvulo foi retirado, fecundado, e depois recolocado.

Não é uma gravidez de muito risco?
Pela idade, seria sim. Por isso escolhi um obstetra especializado em gravidez de risco. Mas estou muito bem, felizmente, segundo meu médico tenho uma gestação como a de uma jovem de 20 anos. Fiz os exames todos, incluindo o de líquido amniótico, e não precisei tomar nenhum remédio nem vitamina. Minha alimentação sempre foi balanceada, faço ioga, hidroginástica e dança de salão. Engordei cinco quilos em seis meses.

Você sabe se é menino ou menina?
O médico sabe. Mas eu quero que seja surpresa. Torço um pouco para ser mulher porque nem sei o que é uma trave de futebol. Claro que vou aprender se for homem. Mas para mim parece mais fácil colocar lacinho na cabeça e brinco na orelha. O único drama para o menino é que aqui em casa todo mundo é mulher. Tem a minha mãe de 88 anos, que sofre de Alzheimer, tem duas enfermeiras, a empregada, e até o cachorro é fêmea, a Pri, de “princesa”.

O que você vai dizer a seu filho?
A verdade, antes mesmo que ele possa entender o sentido da frase. Vou dizer que ele não tem pai, pelo menos não como outras crianças. Quem adota nunca deveria esconder, deveria dizer “você é filho do amor e não da barriga”. Claro que vou me aconselhar com um profissional, saber qual a melhor maneira de dizer para que meu filho não fique muito triste.

Como você se descreve?
Uma pessoa alegre, calma, que não faz de uma unha encravada um drama.

E com que sobrenome você quer aparecer no blog?
O de Danio ou o seu de antigamente, Seldin? Tanto faz.

O que fica dessa conversa com Lílian?
Matemática formada pela PUC, fluente em cinco idiomas, trocou as ciências exatas pelo trabalho diário na delicatessen dos pais em Copacabana. Solteira, Lílian poderia ter desistido de ser mãe, poderia ter caído em depressão após a separação, poderia ter envelhecido de tristeza, poderia ter substituído o desejo pela frustração e mágoa, poderia ter visto na perda de memória da mãe um futuro sombrio….. Mas há pessoas que insistem em criar um final feliz para suas vidas e para quem as rodeia. Elas reescrevem seus roteiros. E por isso agora Lilian procura um apartamento maior, que dê para todo mundo. Não procura um amor, pois é tempo de amar o bebê.

“Neste momento, não preciso conhecer ninguém nem paquerar ninguém. Não cabe agora. Converso com o bebê, boto música clássica para ele ouvir. Cada coisa em seu momento, e tudo passa rápido. Vou me apaixonar de novo, não nasci pra viver sozinha. Meu filho um dia vai ter pai”.

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