sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A crise vista de dentro da embaixada brasileira

Publicado por Kassu - 02/10/2009 às 07h50

Texto publicado em Zero Hora desta sexta-feira:


A reportagem de Zero Hora rompe uma, duas, três barreiras militares que cercam a embaixada brasileira. São 13h40min (16h40min em Brasília). Os passos são rápidos. Em frente à representação brasileira, o encarregado de negócios Francisco Catunda bate com o dorso da mão no grande portão verde da embaixada. Está de volta ao prédio, que é o centro das atenções do continente desde que o presidente deposto Manuel Zelaya retornou a Honduras. Alguns policiais caminham atrás de nós. De longe, questionam o rompimento da barreira por parte de ZH. O portão da embaixada é aberto por assessores do presidente deposto.

— Posso entrar, Catunda? — pergunto.

O brasileiro acena positivamente com a cabeça. É apenas um passo, e parece que tudo muda. A partir do lado de dentro do terreno da embaixada, já território brasileiro, observo os militares hondurenhos discutindo entre si lá fora. Até que um deles desiste.

— Já está dentro. Agora, não adianta.

Sim, aqui dentro é Brasil. No terreno, há árvores verdes e flores em um jardim. Esta é a primeira cena do território que se escancara diante de ZH. Dois carros diplomáticos estão estacionados. A sensação é de euforia. Os olhos querem ver tudo aquilo que o mundo até agora só conhece por raras descrições que saem daqui.

— Bem-vindo — diz uma senhora que veste blusa colorida e calça jeans, sentada em frente ao estacionamento.

É Xiomara Zelaya, a mulher do presidente deposto Manuel Zelaya, que fala ao telefone celular. Ela consegue manter a elegância mesmo depois de uma semana de sítio, onde comida e água são escassas. Quer saber de onde sou.

— Porto Alegre, sul do Brasil, a cidade do Fórum Social Mundial — explico.

No térreo, muitos descansam deitados em colchões ou recostados nas paredes. Estão dispersos, cada um a seu canto e, por isso, a sensação é de que há menos do que as 50 pessoas abrigadas no prédio neste momento. O ambiente é incrivelmente limpo. Paredes brancas parecem intocadas.

Um dos seguidores de Zelaya faz as vezes de anfitrião. Leva-nos a conhecer os locais vulneráveis da embaixada. Por cima de um dos muros, à direita, pode-se observar soldados acampados no terreno ao lado. Ao fundo, uma cerca está rompida.

— É por onde colocaram o gás tóxico dia desses — acusa um dos manifestantes.

Aqui dentro, os ativistas se dividem em grupos: alguns são responsáveis pela segurança, outros pela limpeza e há ainda os que se ocupam com reuniões e debates. São a cúpula do movimento.

No segundo andar, onde a bandeira brasileira resiste imóvel, fica uma espécie de centro de comando: o gabinete do embaixador, ocupado por Zelaya e cuja porta está guardada 24 horas por um segurança, é um desses locais. Na sala de Catunda e do ministro Lineu Pupo de Paula há ar-condicionado. Uma espécie de refúgio dos brasileiros.

Nos corredores, quadros com paisagens da Amazônia e Rio de Janeiro remetem às belezas naturais do Brasil. Na sala de comunicações, fechada com cadeados, só os funcionários brasileiros podem ter acesso. Lá, há um computador e documentos secretos da embaixada. É inviolável, nas palavras de Pupo de Paula.

Zelaya raramente aparece. E seus assessores tomam todas as precauções para que esteja seguro: os vidros do prédio estão cobertos com folhas de jornal.

— São para proteger a movimentação do presidente — explica o médico de Zelaya, Marco Girón, um senhor simpático que usa jaleco branco e traz o estetoscópio permanentemente sobre os ombros. Ele dá as primeiras informações: aponta, a partir do grande terraço branco, onde supostamente estão franco-atiradores nos edifícios ao lado. Diz que Zelaya está bem de saúde, mas que, com o passar do tempo aqui dentro, todos podemos ter dores de cabeça. A sala ocupada pelo presidente tem os vidros cobertos com papel laminado, para refletir as luzes dos holofotes usados pela polícia à noite. Não há armas visíveis. Zelaya está cada vez mais preocupado com a segurança: dorme em uma sala no térreo, onde acredita estará livre dos franco-atiradores.

Os ativistas conversam, puxam assunto, explicam porque apoiam a resistência:

— Os próprios soldados, quando temos contato com eles, nos oferecem cigarros. A gente vê que estão sendo pressionados a cumprir ordens — afirma um dos homens da segurança.

A noite começa a cair. O clima é de tranquilidade, a embaixada parece isolada do caos lá fora, onde militares usam escudos e gases lacrimogêneo para dispersar a multidão de simpatizantes de Zelaya. Aqui dentro não há TV ou rádio. Não há colchões para todos. Mas a sensação de se estar em território brasileiro, apesar do cerco, ameniza a preocupação com as próximas horas.

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