quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Corrida contra o tempo para salvar o Xingu

Karina Miotto

Ele olha para o lado e pega a mochila encostada em um canto no chão. Está leve – para viajar pela floresta, basta o necessário. “Muita coisa a gente compra ou ganha pelo caminho”, conta Marcelo Salazar, do Instituto Socioambiental (ISA). Às sete da manhã o barco sai de Altamira (PA) e três dias depois chega na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrisio, Terra do Meio, um dos lugares mais ameaçados e afetados pela destruição em toda a Amazônia.

Salazar é um dos coordenadores adjuntos do Programa Xingu, do ISA, cujas ações acontecem no Pará e no Mato Grosso, na Bacia Hidrográfica do Xingu, uma região com 51,5 milhões de hectares. Nela estão o Corredor de Sociobiodiversidade do Xingu, com 28 milhões de hectares de áreas protegidas contíguas e, dentro dele, o Mosaico de Áreas Protegidas da Terra do Meio, com 8,6 milhões de hectares. Para se ter uma ideia do quão grande é o lugar, a área total da bacia equivale a mais de duas vezes o estado de São Paulo e seus 645 municípios juntos. (Para visualizar o tamanho da Amazônia Legal, clique aqui).

“Trabalhamos o desenvolvimento sustentável com populações ribeirinhas e indígenas, principalmente”, explica André Villas-Bôas (que não tem parentesco com os irmãos Villas-Bôas). Ele é indigenista e coordenador do programa, que existe há 15 anos e visa contribuir com o ordenamento socioambiental da bacia. Além da atuação em reservas extrativistas da Terra do Meio, com ênfase nas áreas Xingu, Riozinho do Anfrisio e Iriri, ações diretas também são feitas no Parque Indígena do Xingu (PIX), na Terra Indígena (TI) Panará e nas cabeceiras do rio, por meio de parcerias com outras organizações na chamada “Campanha ‘Y Ikatu Xingu”.

Prática e “pé no chão”

“O ISA é uma instituição ‘pé no chão’, estamos sempre em campo. Atuar na bacia significa ter que lidar com diferentes atores, governos, povos, territórios. O lugar é gigante, o que dificulta a logística e a comunicação. É um desafio fazer a roda girar com tantas variáveis”, diz Salazar – e a roda gira. Em mais de uma década, o ISA tem realizado grandes feitos na região do Xingu.

Conta Villas-Bôas que em 2002 a situação era de total abandono das populações extrativistas na Terra do Meio: as taxas de analfabetismo beiravam 86%, a comunicação era inexistente e o isolamento, grande. “Parecia uma volta à década de 40. As pessoas viviam em estado de carência profunda”, avalia. A partir daí, nasceu a proposta preliminar elaborada em parceria com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e com a Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP) para a criação do Mosaico de Áreas Protegidas da Terra do Meio, formado por três terras indígenas e sete unidades de conservação. Entre 2006 e 2008, as áreas protegidas propostas para a Terra do Meio foram criadas pelo governo federal. “A região sofria com grilagem, investidas de madeireiras. Isso veio em um momento totalmente oportuno”, diz Villas-Bôas.

De lá para cá, o mosaico ganhou redes de articulação entre instituições públicas e privadas, estruturas básicas de comunicação e saúde, treinamentos em educação, entre outras coisas. “A criação destas unidades veio conformar um corredor de áreas protegidas de 28 milhões de hectares abrangendo regiões de Cerrado, Amazônia e florestas de transição, sendo que 20 milhões são terras indígenas. Esta é uma área emblemática na sociobiodiversidade do Brasil e da Amazônia”, explica Villas-Bôas.

Projetos de sucesso

Muitas ações marcam a atuação do programa. Para citar algumas, nos municípios de São José do Xingu, Querência e Claudia, todos no Mato Grosso, dez produtores têm trabalhado desde 2009 no plantio de 116 hectares para o sequestro de 40 mil toneladas de carbono com o objetivo de neutralizar emissões da empresa de cosméticos Natura. Eles receberão três mil reais por hectare até o terceiro ano após o primeiro plantio.

“O sequestro de carbono é uma consequência desse trabalho e um incentivo a mais para que possam recuperar matas ciliares e nascentes”, afirma Rodrigo Gravina Prates Junqueira, coordenador adjunto do Programa Xingu e representante do ISA na Campanha ‘Y Ikatu Xingu, responsável pelo processo de restauração de dois mil hectares de matas ciliares espalhadas entre 14 municípios do Mato Grosso.

Os primeiros plantios começaram em 2006 e atualmente são feitos com 200 espécies de sementes nativas como Jatobá, Baru e Pequi. As coletas renderam em três anos 250 mil reais a 300 famílias de indígenas e agricultores familiares. “Hoje, 25% dos agricultores que antes eram pecuaristas dedicam a maior parte do seu tempo à coleta de sementes. É o início de uma economia florestal que há cinco anos era inimaginável”, afirma Junqueira.

Outra coisa que tempos atrás esteve igualmente fora da imaginação dos habitantes da região é o acesso à internet. Hoje ela é parte da realidade de pelo menos 9 dos 16 povos indígenas do Parque Indígena do Xingu. O uso de tecnologia também recai sobre a produção de energia. “Queremos que exista só fonte de energia limpa aqui dentro”, conta Paulo Junqueira, coordenador adjunto do programa no parque.

Ao notar a deficiência energética em prédios públicos, a equipe sugeriu ampliar o uso de placas solares. Deu certo. Hoje, pelo menos 100 são vistas no Parque Indígena do Xingu. Além disso, o programa visa a substituição de diesel por óleo de macaúba nos geradores. “Nossa intenção é chegar a um sistema híbrido que funcione com energia solar e óleo vegetal”, diz Salazar. O projeto piloto acontecerá este ano.

Em chamas

De acordo com o Instituto Centro de Vida (ICV), de 1º de janeiro a 31 de outubro de 2010, Mato Grosso registrou 36.413 focos de queimadas. O Parque Indígena do Xingu também ardeu em chamas – foram pelo menos 427 focos entre agosto e 15 de setembro, mesma época em que uma parceria possibilitou o treinamento de 112 indígenas para o combate a incêndios e alastramentos. Cinco brigadas foram formadas e ex-alunos se uniram para, juntos, apagar quatro focos no parque. “Este curso veio a calhar e o resultado foi além de nossas expectativas”, conta Katia Yukari Ono, coordenadora do treinamento.

Ameaças e compensações

A Bacia Hidrográfica do Xingu fica em uma região que sofre muitas ameaças. Entre as principais estão o possível asfaltamento da BR 163, da BR 158 e da Transamazônica, a construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas nas cabeceiras do Xingu, além da usina de Belo Monte. “Pavimentações estão em pauta sem o planejamento adequado. Elas margeiam a bacia e com estradas sempre vem desmatamento. Isso sem falar em grilagem, roubo de madeira, avanço da agricultura e da pecuária, pressões clássicas amazônicas”, complementa Salazar.

Mas vale o esforço. Além dos benefícios levados à região, outras compensações acompanham os passos de quem trabalha pela Amazônia. “Não tem o que paga acordar e tomar banho de rio, dormir e ouvir o Guariba no meio da madrugada e comer peixe fresco iluminado com uma lamparina a óleo de copaíba ouvindo histórias de onça e bravuras da borracha...”, diz Salazar.

Karina Miotto é jornalista formada pela PUC-SP. Freelance do Grupo Abril, ama viajar e foi parar na Amazônia, de onde chegou a trabalhar para o Greenpeace e a escrever para as revistas Terra da Gente e National Geographic. É autora do blog Eco-Repórter-Eco e correspondente do ((o)) eco Amazonia.

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