terça-feira, 17 de maio de 2011

Palhaço Xuxu encanta bolivianos dentro de uma igreja

ANTONIOALVES www.gentedeopiniao.com
 
PORTO VELHO, RONDÔNIA — Com mais de um milhão de habitantes, a moderna e bela Santa Cruz de La Sierra recebeu o FestCineamazônia Itinerante pelo segundo ano consecutivo; as atividades deste ano aconteceram na noite de 5 de maio, atraindo um grande público que acolheu as propostas reflexivas do festival, por meio de filmes e vídeos, quanto ao modelo atual de desenvolvimento adotado até aqui por imposição do capital pelo capital, não levando em conta o homem e a natureza.
 
Os coordenadores do evento incluem prioritariamente na mostra produções que apresentem alternativas para o progresso sustentável dos países, sem o ranço do radicalismo e num clima que permita a adesão de pessoas de todos os matizes por uma causa comum. “Sem ódio, sem jamais perder a ternura”, destaca Jurandir Costa.
 
 Não por acaso, a mostra em Santa Cruz foi numa igreja da Paróquia Maria Assunta,  no Bairro 1º de Maio, um dos mais violentos da cidade. O inusitado ficou por conta do envolvente show do Palhaço Xuxu dentro de uma igreja, interpretado pelo ator Luiz Carlos Vasconcelos, cuja experiência no teatro, televisão e cinema passa por atuações em seriados e filmes importantes como Carandiru, no papel do médico Dráuzio Varela. Entre risos e gargalhadas, o show Silêncio Total – Um Palhaço está Chegando revelou-se ponto crucial na reflexão por um mundo melhor e na expansão do intercâmbio cultural entre os povos.
 
Guajará Mirim,Brasil
 
No dia seis o FestCineamazônia retorna ao Brasil apresentando-se em Guajará-Mirim, na Escola Municipal Maria Celeste. Estudantes e comunidade só lamentam que a mostra seja apenas uma vez ao ano. “Vi o convite e fiz questão de trazer o meu filho. Mas pra falar a verdade eu me esbaldei com as brincadeiras do palhaço. Acho bom a gente voltar a ser criança de vez em quando”, revela o comerciante Emerson Nascimento. O diretor da escola Maria Celeste, Charleston Edson, está empolgado com a chance de se tornar um disseminador da ideia. “O que depender da gente, haverá sempre espaço para que este projeto nunca deixe de acontecer em nossa cidade. Aliás, vou participar mais ativamente das oficinas, quem sabe nós mesmos vamos produzir trabalhos nessa linha, despertando o interesse da juventude pela arte e a reflexão”, ressalta.
 
Guayaramerim, Bolívia
 
Guajará-Mirim foi o ponto de partida para outra região da Bolívia, o Beni, fronteiriço a Rondônia. A cidade irmã boliviana, Guayaramerim, fica do outro lado do rio Mamoré, tendo como uma das principais atividades econômicas o comércio de produtos importados da China aos brasileiros, que tiram vantagem da valorização do real frente ao peso boliviano em quase quatro por um.
 
Guayaramerim tem cerca de 40 mil habitantes em busca de oportunidades reais de inclusão social. E a adesão em massa às atividades do festival aponta a vontade do povo vizinho em estreitar ainda mais o intercâmbio cultural com o Brasil e outros países, especialmente os que integram a Amazônia, entendendo que a união de forças pode acelerar esse processo. “Costumo dizer que é necessário e urgente amazonizar a Bolívia e os povos da maior floresta do Planeta. E um dos passos decisivos para isso tem sido o FestCine Itinerante, que tem levado essa conscientização estrategicamente às periferias, onde vivem as pessoas mais carentes”, destaca o escritor boliviano Juan Carlos Crespo, colaborador do projeto e secretario de Cultura daquela cidade.
 
A mostra em Guayara foi no dia 7 (sábado), no Ginásio de Esportes do Bairro Belém, onde cerca de mil pessoas ficaram atentos aos filmes e aplaudiram de pé o número do Palhaço Xuxu. “Quase não temos esse tipo de evento por aqui que nos faz refletir sem amargura, pois, ao mesmo tempo em que apresentam problemas e alternativas, o Palhaço Xuxu nos mostra isso pode ser feito com muita graça, muito riso”, diz a moradora Francie Lianne Davies.


Riberalta
 
O sucesso de público em Riberalta é ainda mais surpreendente. As centenas de cadeiras e as arquibancadas quase não comportaram tanta gente. Crianças e adultos inebriados pela mágica do cinema. Como se não bastasse, o Palhaço Xuxu enternece mais uma vez uma platéia que também acredita que a vida pode ser maravilhosa. “É muito gratificante receber brasileiros que trazem a arte como forma de integração dos povos. E esse lado lúdico é essencial no nosso cotidiano. O Xuxu nos mostra que brigar por justiça nada tem a ver com a raiva. Rir também é preciso”, recomenda a professora de dança Liliana Medina Cervantes, que dirigiu um grupo de bailarinas de dança clássica durante o festival.
 
Ao final, Xuxu emociona mais uma vez o público ao ler a Declaração do Riso da Terra: “(...) Cultivemos o riso, mas não um riso que discrimine o outro pela sua cor, religião, etnia, gostos e costumes. Cultivemos o riso para celebrar as nossas diferenças. Um riso que seja como a própria vida: múltiplo, diverso, generoso. Enquanto rirmos estaremos em paz.”, diz um trecho  da declaração. No “documento”, Xuxu introduz ainda texto extraído de um papiro egípcio: “Quando os deuses se encontraram e riram pela primeira vez, criaram os planetas, as águas, o dia e a noite. Quando riram pela senda vez, criaram as plantas, os bichos e os homens. Quando gargalharam pela última vez, eles criaram a alma”.     
 
O desafio de fazer e exibir cinema
 
Enfrentar a estrada que liga Porto Velho a Guajará-Mirim é, por si só, um desafio. A rodovia tem buracos desde a BR~364 até a área urbana da cidade, que também sofre a ausência do poder público.
 
Mas os desafios não param por aí. Produzir cinema também já é, por si só, tarefa para poucos, tamanha as barreiras de toda ordem a serem enfrentadas, Nesta itinerância, por exemplo, os problemas surgiam a cada minuto. Ora um membro da equipe impedido de entrar em território internacional por causa de um ou outro detalhe, nada que não fosse resolvido desde que com tempo para isso.
 
“Não era o nosso caso, pois nosso cronograma seria seriamente comprometido sob o risco de cancelar tudo”, diz Fernanda Kopanakis, coordenadora do festival.
 
A tonelada de equipamentos também era outro obstáculo para atravessar a fronteira. Depois de cansativas buscas por um meio mais prático e dentro da realidade orçamentária do projeto. Feitos os cálculos, optou-se por uma “chatinha”, uma espécie de canoa gigante, para a travessia da parafernália. “Apesar de todos os entraves, resta a certeza de que cumprimos mais uma etapa e que plantamos a semente que já começa a germinar à medida que ouvimos depoimentos favoráveis ao FestCineamazônia. Acho que seguimos uma boa trilha”, conclui Costa. 
 

Seja o primeiro a comentar

Copyright© 2008-2015 | AGUA BOA NEWS COMUNICAÇÃO LTDA Todos os direitos reservados | By: MICHEL FRANCK

Início