terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sinais de Chegadas relata translado de índios de Mato Grosso ao Parque do Xingu

Especial para o Olhar Conceito - Michelle Carlesso Mariano

Foto: Reprodução
Sinais de Chegadas relata translado de índios de Mato Grosso ao Parque do Xingu

Sinais de Chegadas (Carlini & Caniato Editorial, 2013, 352 páginas), de Odenir Pinto de Oliveira, um dos maiores indigenistas do Brasil, traz um romance ambientado em uma Frente de Atração que tinha por objetivo “pacificar” os chamados “índios gigantes” no norte de Mato Grosso e transladá-los ao Parque do Xingu.

Abordando fatos reais através de personagens fictícios, o narrador-personagem delineia a trama de maneira magistral, sem omitir detalhes chocantes, pormenores cotidianos, anedotas e diálogos introspectivos que fazem com que essa leitura seja fluida e prazerosa.

O livro começa contando a história de personagens que tiveram seu destino convergido à Frente de Atração.
Geraldo, de origem indígena, abandonou sua aldeia devido a uma paixão platônica por uma professora e, após idas e vindas, acabou como cozinheiro da Frente. O padre Isaías que, devido ao seu contato com crianças de uma reserva indígena onde lecionava, conhecia os horrores que a chamada “civilização” impunha a esses povos. Silvio PortoBello, chefe da expedição, sabia como ninguém cumprir seu ofício de sertanista, transferindo povos indígenas de seus territórios tradicionais sob o pretexto de salvá-los, para dar lugar ao avanço do desenvolvimento. Lino, perdeu a família e o emprego pelo vício em drogas, juntou-se ao grupo por intermediação de um sertanista que se casou com sua ex-mulher. Seu Aquilino, um “Velho Errante”, negro forte que abandonou o convívio com outras pessoas e se embrenhou no mato, acompanhado somente de seus dois cachorros, conhecia como ninguém a linguagem da floresta, tornando-se uma figura mitológica que “assombrava” os trabalhadores que construíam a BR 163. Quanto ao narrador, esse vai se mostrando ao longo da trama através de suas memórias e seus amores.

Ano de 1971, norte de Mato Grosso (região de Peixoto de Azevedo), acampamento da Frente de Atração Rio Braço Norte, composta de 23 pessoas, das quais 7 eram funcionárias do órgão indigenista e as outras 16 eram indígenas de várias etnias que faziam o trabalho braçal. Objetivo: pacificar o povo indígena que habitava o lugar, “os índios gigantes”, chamados Parenty e transportá-los para o parque Indígena do Xingu, liberando assim o território por onde passaria a BR 163, que liga Cuiabá a Santarém. Não menos importante era o fato de que essas tribos habitavam uma região de depósitos minerais, onde se encontrava grande quantidade de ouro e pedras preciosas ou a localização estratégica para uma base militar, com pista de pouso e buracos enormes no solo para testes de armamento.

Em nome do progresso, o povo Parenty perdeu seu direito de habitar a região e tinha que ser removido o quanto antes. Eles, por sua vez, evitavam o contato com o “homem civilizado”, mostravam-se arredios e rejeitavam as quinquilharias, sinais fortes da intenção pacífica, deixadas como presente pelos membros da Frente de Atração. Tinham suas aldeias constantemente sobrevoadas por aeronaves e, os que se aproximavam demais dos construtores da estrada, morriam rapidamente de algo que eles não conheciam. Sem saída, resolveram “pacificar” esse povo barulhento e foram de encontro ao acampamento da Frente de Atração.

Com a “pacificação”, a Frente de Atração se transformou num local turístico, atraindo jornalistas do mundo todo, personalidades e autoridades que queriam ver de perto os famosos Parenty. Reportagens corriam o Brasil e o mundo, trazendo fama e prestígio para om pretenso Estado “salvador”. O que as lentes objetivas não capturavam eram as mortes provocadas pelos vírus que eles mesmos traziam, com os quais os indígenas não tinham armas para se defender e aqueles que as possuíam, o Estado, não tinham a intenção de empunhá-las. As famílias desfeitas pela perda de seus membros, de seus laços de parentesco, de sua cultura, seu modo de vida, de seu “ser”. Há inclusive relatos de crianças indígenas levadas para morar no exterior por órgãos missionários sem o consentimento daqueles que ficaram.

Os Parenty resistiam. Sua população destroçada pelas mortes se reunia para formar nova aldeia. Junto com os Parenty, a Frente de Atração também permanecia no local, pois ainda faltava realizar o segundo objetivo: a remoção dos indígenas para o Parque do Xingu. Enquanto isso não acontecia, seus membros se entretiam com suas lembranças, mergulhavam em introspecções, devaneios num outro sentido de tempo que não é o cronológico. É o tempo da floresta.

É fato, com uma população reduzida em 2/3, os fortes e temidos Parenty se entregaram, deixando na terra em que habitavam apenas “sinais” de sua passagem que logo foram suprimidos pelas máquinas que escavavam o solo em busca de minerais. Foram levados ao Parque do Xingu em aeronaves militares como um troféu à política indigenista de “proteção” aos povos tradicionais, fatos, tão atuais, que marcaram para sempre a vida daqueles que, de alguma maneira, participaram dessas empreitadas, reescrevendo o destino de um povo: o povo indígena do Brasil.

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