quarta-feira, 23 de abril de 2014

PRISÃO DO AMOR

Autor: Edilberto Magalhães


Tinha um sol no olhar! De manhã, à tarde ou à noite lá estava ela a iluminar a vida. Pela janela! Trancada na prisão do amor, lhe falavam que era assim. E durante anos assim ela viveu. Todos pensavam que ela estava presa, mas sabe, ela era livre! Tinha uma imaginação do tamanho do mundo, e livros, muitos livros que a levavam para além da sua clausura. Conheceu Paris, Itália, Japão e o Morro do Alemão. Sentiu o sabor de cada lugar que esteve como se fosse a última primeira vez. Tinha pressa! O tempo corria contra o tempo e era preciso sobreviver.  
Certa feita, contou-me que se pôs a pensar sobre o silêncio. Com quatro filhos pequenos o silêncio tinha outros significados. Nos momentos de balbúrdia buscava a calmaria que existia no seu interior. Olhava-se pelo espelho d’alma branca, amarela e azul. Adorava as cores! Certa vez, num desses desencontros da vida me contou que guardava um silêncio numa caixinha de madeira. Dessas artesanais, com detalhes que trazem consigo a vida de quem a produziu. Disse-me ela: “─ Esse silêncio não é grande coisa, nem vale muito dinheiro, aliás, não vale dinheiro algum! Mas eu guardo”. Não sabia ao certo o porquê, mas isso lhe fazia feliz. E a felicidade é coisa rara hoje em dia. Têm-se fragmentos de felicidade, mas felicidade mesmo, aquela de conto de fadas... 
─ À noite, quando eles estão dormindo, deixo-o sair para brincar - contou-me ela, sobre o silêncio que guardava. Disse-me também que ele adora brincar. É uma criança adulta, ou será um adulto criança?! Não sei. Sei que conheceu Clara há alguns meses e logo se apaixonou. “Como não se apaixonar por Clara?!”, disse o silêncio a ela, numa noite de outono. Clara é tão doce, como arco íris na primavera e a brisa da manhã, mas, ao mesmo tempo, tão complexa quanto física quântica. Ele adora essa simbiose! Pensam em se casar, mas antes disso ele precisará se libertar da caixinha de madeira. Mas isso é perigoso. Eles o procuram a todo o momento. A caixinha de madeira é a sua liberdade e a sua prisão. 
Fiquei feliz por ela ter me contado sobre o silêncio que guarda na caixinha de madeira. Foi singelo. É nítido que ela o ama. E por falar em amor, contou-me, numa tarde de chuva e sol dessas do verão, que sonhou que pelo amor do amor era preciso lutar contra o que ela nem sabia. Achou confuso, mas sonhos são assim. Pesadelos então... Sabe, no fundo acho que ela nem sentia que era preciso lutar. Acreditava na justiça divina!  
Quando a prenderem na prisão do amor roubaram-lhe parte da vida. Uma das partes mais essenciais da vida, a liberdade. Não a liberdade subjetiva que ela consegue através da imaginação, da leitura... mas da liberdade objetiva, da física. Do poder abrir a porta e colocar os dois pés no chão, na rua da amargura ou do amor. Na rua da vida.  
No fundo ela sabe que para isso é preciso paciência. Muita paciência, por sinal. E assim ela a persegue da mesma forma que persegue a inquietação. Tem consciência de como as coisas são, mas não quer deixar as coisas como elas estão. Já quis mudar o mundo. No fundo, ainda quer. Mas, para isso, a paciência é fundamental. Cumplicidade também. Não dá para mudar o mundo sozinho. Não dá nem para ir à China sozinho. A companhia é importante, além de tudo ela ajuda a vencer os medos. E sabe, ela me contou que tem muitos medos e que, sem a ajuda de alguém, é possível que ela desista. A desistência não é o seu objetivo, mas ela não é forte o suficiente. Pelo menos é o que ela acredita vivendo trancada na prisão do amor. Deus a acompanha. Mas nem sempre ela consegue enxergar isso.
Sonhei com ela outro dia. Foi um sonho lindo, desses que temos quando realmente gostamos de alguém. Acordei cedo e fui à sua casa para contar sobre o meu sonho. No caminho lembrei-me de quando ela se descobriu artista. Foi aos dez anos de idade. Começou pela poesia, mas não pôde terminar. Roubaram-lhe a vida aos treze anos! Virou mulher da noite para o dia sem ao menos poder dizer não! Não podia dizer nada. Não lhe era permitido, não lhe era permitido sonhar. Dizia que a arte, um dia, a libertaria. Sua expressão de felicidade ao dizer isso era contagiante. 
Após alguns minutos de caminhada cheguei à sua casa. Procurei o sol do seu olhar, mas não encontrei. Havia se libertado da prisão do amor. Agora o mundo seria pequeno. O universo era apenas o começo, mas eu já sabia qual seria o fim.

Edilberto Magalhãesedilbertomagalhaes@gmail.com

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