Em busca de emprego, oportunidade na vida e bons salários jovens de Salto do Céu driblam autoridades espanholas e desembarcam em Madrid

Foto / Dinalte Miranda
Publicado por Kassu/AGUABOANEWS
EDUARDO GOMES /Diário de Cuiabá
Da Reportagem
Coyote cartorial. Essa é a figura central para abrir a porta da Espanha ao imigrante que chega do Brasil, mais precisamente de Salto do Céu. Ao contrário de seu homônimo mexicano, que faz perigosas travessias no rio Grande para levar latino-americanos ao Texas, nos Estados Unidos, esse personagem ainda desconhecido nos noticiários faz maracutaias na ponta final do trajeto simultaneamente ao jeitinho brasileiro dado por seu cliente na região oeste mato-grossense.
Salto do Céu exporta mão-de-obra jovem para o trabalho pesado na Espanha. O mesmo acontece em Jauru, Rio Branco, Figueirópolis D’Oeste e outros municípios da região. Driblar a Polícia de Imigração espanhola é fácil, desde que haja cumplicidade de alguém naquele país. É assim que age parte dos mato-grossenses.
No aeroporto de Barajas, em Madrid, até prova em contrário os brasileiros são vistos sob suspeita. Nem assim a polícia consegue barrar a entrada de brasileiros de Salto do Céu. Não conseguiu nem conseguirá, porque todos entram com visto de turismo válido para até 90 dias, passagem de volta, com três mil euros em espécie no bolso e um trunfo na manga, melhor na mão: convite de habitação assinado por espanhol, lavrado em ata notarial conforme manda a legislação.
O convite – ressalvadas as exceções – é uma trapaça do coyote. Os euros no bolso do imigrante têm destinação certa, o pagamento em cash pela abertura da porta. Do lado espanhol funciona assim. Olé!
No Brasil é comum a troca de identidade do emigrante. “Zé da Silva” vira “Zé Lafuente”. O sobrenome evoca supostos laços de consangüinidade com o forjado hospedeiro. No Brasil falsidade ideológica é crime. Na Espanha a imigração clandestina não é criminalizada, mas o ministro do Trabalho e Imigração, Celestino Corbacho, alerta que seu país não é mais paraíso para os imigrantes. Ninguém dá bola à fala de Corbacho, porque as vagas que faltam em Salto do Céu sobram na construção civil espanhola, com salários em torno de três mil euros.
Ruas vazias. Mercado de trabalho restrito. Sem indústrias Salto do Céu exporta mão-de-obra jovem para a construção civil espanhola
Mato-grossenses na Espanha facilitam a ida de conterrâneos. É uma espécie de corrente. Os imigrantes lá fazem o meio-campo com os coyotes, mas há alternativa para contratá-los, por meio de agenciadores, em Cáceres. A intermediação aumenta o preço para se chegar à Espanha, mas anula o risco de grampo telefônico envolvendo diretamente o interessado. A ponte entre o agenciador de coyote é salgada: mil euros, adiantados.
Salto do Céu jura de pés juntos que o fuzuê para a Espanha não tem ligação com a prostituição. Repete o juramento argumentando que jovens deixam a região em busca de trabalho e oportunidade, coisas raras para não dizer impossíveis por aquelas bandas.
Quantos moradores da região de Salto do Céu vivem na Espanha ninguém sabe, ou todos fingem não saber. Se há alguém com as malas afiveladas para Madrid, Barcelona, Sevilha, é mistério. Uma omertà pela sobrevivência cala a cidade, onde a prudência recomenda ao visitante que a melhor pergunta é aquela que não se faz.

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