quinta-feira, 22 de julho de 2010

Copa, a questão

*Por Onofre Ribeiro para Água Boa News

No último domingo abordei o tema aqui neste espaço no artigo “Sonhos e falta de sonhos”. Nele anotava o pouco entusiasmo dos habitantes da cidade a respeito da próxima copa do mundo que terá Cuiabá como uma das sedes. Recebi muitos e muitos e-mails e comentários, todos divergentes entre si. Alguns, até agressivos, dizendo que a copa é uma babaquice e não vai trazer nada para a cidade. Outros eufóricos. Mas, lamentavelmente, a maioria dos e-mails e dos comentários foram de desânimo.


Não gostaria de entrar no mérito da copa neste artigo. Gostaria de falar um pouco sobre a nossa capital. Moro nela desde agosto de 1976. Era uma cidade pequena, com 100 mil habitantes, muito acanhada, concentrada no centro histórico, com alguns bairros nascendo num raio de 5 quilômetros, talvez. Era um momento particularmente importante de ocupação da Amazônia e com sucessivas ondas de migração em busca de um suposto “eldorado” amazônico. Gente jovem gente adulta e muita gente cansada dos grandes conflitos agrários, sociais e econômicos do Sul e do Sudeste brasileiros.


A cidade cresceu depressa, mas da pior maneira. A maioria dos migrantes foi para as regiões novas do Norte, do Leste e do Noroeste de Mato Grosso. Uma grande leva era de gente pobre vinda do Nordeste do país trazida para ocupar o Território Federal de Rondônia, que o governo federal queria transformar em Estado, para viabilizar a ocupação regional e melhorar a performance política do cansado governo militar no Congresso Nacional.


Muita gente que veio não suportou a dureza das regiões novas, e os de Rondônia não agüentaram a falta de assistência. Todos desceram e se fixaram em Cuiabá, a partir de 1980, cansados, doentes e sem chances de voltarem às suas terras de origem. Assim, Cuiabá cresceu depressa demais com favelas, grilos e invasões de áreas urbanas. Aqui merece uma lembrança: deputados estaduais da época, federais e vereadores, coordenaram as invasões de terras urbanas em troca de votos.


Passados 30 anos, Cuiabá é essa cidade sem rumo e sem projetos. Enquanto Campo Grande se estruturou, Goiânia e até Porto Velho, Cuiabá é uma cidade esparramada, sem vias de escoamento adequadas e quase impossíveis de responderem aos fluxos de escoamento do tráfego urbano. Mas o pior,é a falta de projetos e de planejamento capazes de responder ao mínimo desses desafios. O poder público municipal de Cuiabá é absolutamente incapaz de responder. As instituições públicas e privadas não se incorporaram a esse desafio contribuindo ou discutindo. A população segue a sua rotina da cantilena de reclamar através da mídia, e nada mais!


De repente, a copa do mundo é a única e exclusiva oportunidade de se resolver o planejamento estratégico do curto e do médio prazos desse caos em que a cidade se transformou. Mas aí a cidade não responde. Uns, por saudosismo. Outros, por descrença. Outros, por inércia. Outros, por descompromisso. Outros por desculpe e descrença política. Alguns tentam responder. Mas a pressão contrária é absurda. Nesse ponto, acho que se Campo Grande tivesse sido escolhida, em vez de Cuiabá, lá eles teriam mais sinergia com as chances de transformações.


Concluo este artigo, lembrando que fora da copa não haverá salvação para Cuiabá nos próximos anos. Mas sem o aval da sociedade cuiabana, vai ser difícil. Muito difícil, porque a torcida contra é enorme!

*Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

onofreribeiro@terra.com.br

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